Produção em queda eleva preço do leite

Os preços do leite ao produtor nacional tiveram forte alta em março, reflexo da menor produção no país em decorrência da entressafra e dos maiores custos de produção da matéria-prima. De acordo com levantamento da Scot Consultoria, o preço médio pago ao produtor brasileiro em março – pelo leite entregue no mês de fevereiro -alcançou R$ 1,009 por litro, alta de 2,66% sobre o pagamento precedente.

A diminuição da produção – como mostram dados de captação – explica a valorização, diz Rafael Ribeiro, analista da Scot Consultoria. Em fevereiro a captação recuou 4,7% sobre janeiro, na média nacional, e dados parciais mostram recuo de 1,7% entre fevereiro e março, conforme o índice de captação da Scot.

O menor volume de chuvas nas bacias leiteiras do Sudeste e no Centro-Oeste é uma das razões para o recuo da oferta de leite, que deve continuar a cair nos próximos meses até junho, quando as precipitações são ainda mais escassas, observa Ribeiro.

A alta dos custos de produção, em decorrência sobretudo da valorização do milho, é outro motivo para a menor disponibilidade de leite, já que desestimula o investimento na alimentação das vacas.

Ribeiro observa que nem a demanda retraída por lácteos no mercado tem conseguido segurar os preços da matéria-prima. Isso porque, diz, "a queda da produção é forte e há mesmo concorrência entre os laticínios pela matéria-prima".

Nesse cenário, o preço do leite longa vida segue em alta, de acordo com o levantamento da Scot. Em março, o preço médio no atacado paulista ficou em R$ 2,38 o litro, R$ 0,09 a mais que em fevereiro. No varejo, a alta foi de R$ 0,11, para R$ 2,99 em março.

Segundo a Scot, a expectativa é de que os preços ao produtor sigam firmes. Pesquisa realizada pela consultoria com cerca de 150 laticínios mostra que 80% esperam alta no pagamento de abril, 15% acreditam em estabilidade e apenas 5% em queda.

Enquanto os preços do leite estão firmes no mercado doméstico, o cenário é o oposto no mercado internacional, o que pode vir a frear a valorização do leite no front interno, admite Ribeiro. O motivo é que preços em queda no exterior tendem a estimular a importação de leite em pó por empresas brasileiras.

No último leilão de lácteos da plataforma Global Dairy Trade (GDT), referência de preços para o mercado internacional, as cotações (envolvem diferentes produtos lácteos) caíram 2,9%, para um valor médio de US$ 2.190 por tonelada. E a expectativa é de que a pressão persista porque a oferta está em alta em algumas regiões produtoras do mundo e a demanda chinesa patina.

Em janeiro deste ano, os chineses deram um alento ao mercado de lácteos, ao importar um volume de 153 mil toneladas de leite em pó integral. A quantia importada pelo país asiático em janeiro foi 4,4 vezes maior que a comprada em dezembro de 2015 e 49% superior ao do mesmo mês de 2015.

Mas em fevereiro, as importações chinesas voltaram a cair, relata Valter Galan, analista da MilkPoint, especializada em lácteos. O recuo nas compras foi de 24% em relação ao mesmo mês de 2015 – saíram de 65.900 toneladas (entre leite em pó integral e desnatado) para 53.000 toneladas.

Isso mostra, avalia, que, ao comprar maiores volumes em janeiro, os chineses estavam aproveitando o período do ano em que vigora uma tarifa preferencial de importação, de 2,5%, nas compras de lácteos da Nova Zelândia. Normalmente, a tarifa é de 10%. Além disso, estariam aproveitando os baixos preços do produto para recompor os estoques.

O persistente aumento da produção de leite na União Europeia após o fim do sistema de cotas, em abril de 2015, é outro fator de pressão. Só em janeiro de 2016, a produção no bloco cresceu 5,3% sobre o mesmo mês de 2015, o equivalente a 618 milhões de litros de leite. Esse volume, observa Galan, é mais que o dobro do montante que a produção na Nova Zelândia deve cair na safra toda, estimado em cerca de 300 milhões de litros.

Por Alda do Amaral Rocha | De São Paulo

Fonte : Valor

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