Produção de tabaco em ritmo de recuperação no Sul do país

Caco Argemi/Valor

Na propriedade de Sanges Alberto Klafke em Venâncio Aires (RS), pacote tecnológico implantado com orientação da Souza Cruz garante produtividade elevada

Sanges Alberto Klafke esboça um sorriso enigmático quando perguntado sobre como anda o clima na região produtora de fumo do centro-leste gaúcho, uma das mais importantes do país. Afinal, depois que chuvas acima da média, provocadas pelo fenômeno El Niño, derrubaram a colheita no Sul na safra passada, é grande a expectativa de que a temporada atual (2016/17) seja de recuperação. E provavelmente será mesmo, mas não sem alguma emoção.

"Neste ano o clima está maluco. Tivermos novamente chuvas muito acima da média em outubro. Os índices voltaram a um patamar mais normal neste mês [entre 120 e 150 milímetros], mas as temperaturas estão variando muito. Na semana que começou no dia 14 de novembro, por exemplo, tivemos 10ºC à noite e quase 30ºC durante o dia. E isso tem reflexos negativos sobre a produtividade", diz Klafke, que cultiva 10 hectares com a variedade virgínia em Venâncio Aires, maior município produtor de fumo do Brasil na problemática temporada 2015/16.

Apesar das ressalvas, e de ter sofrido pouco com as intempéries do ciclo passado, ele concorda com as projeções que, em geral, sinalizam uma recuperação expressiva da produção de tabaco no Sul – que representa mais de 95% do total nacional e exporta cerca de 90% de sua colheita – na temporada em curso. Conforme dados fornecidos por Benício Werner, presidente da Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra), a área plantada em 2016/17 cresceu 10% na região, para 298,5 mil hectares, e a produção deverá aumentar 28%, para 674,1 mil toneladas.

Klafke é da terceira geração de uma família de fumicultores. Seu avô iniciou a atividade, seu pai plantou em sistema de integração para a Souza Cruz por 30 anos e, há 16 anos, cabe a ele, que é casado e tem 48 anos, dar prosseguimento à tradição, ainda com o apoio da companhia de cigarros controlada pelo grupo British American Tobacco. Antes de assumir as rédeas da propriedade, Klafke foi radialista em Venâncio Aires. Não teve o sucesso que esperava e voltou às origens.

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Klafke: estabilidade do mercado e renda atraíram o ex-radialista à atividade

"O que me atraiu de volta foi a estabilidade do mercado e a renda proporcionada pela atividade. Pesquisa do Centro de Estudos e Pesquisas em Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) aponta que a condição socioeconômica dos produtores de tabaco na região Sul supera a condição média da população brasileira. Conforme o estudo, encomendado pelo Sindicato Interestadual da Indústria do Tabaco (SindiTabaco), só o tabaco gera uma renda familiar mensal média de R$ 4.601,65. Associada a outras fontes de renda, que vão desde atividades agrícolas complementares a aposentadorias, o valor sobe para R$ 6.608,70. As lavouras de tabaco ocupam, em média, 16,6% de propriedades que, em média, têm no total 15,2 hectares, incluindo áreas de vegetação preservadas.

"Verificamos um bom acesso a itens relacionados às condições de conforto, higiene e saúde, respaldado por um bom nível de renda. Os produtores de tabaco têm bom acesso às informações e também a condições satisfatórias para atualização e desenvolvimento da sua atividade. Eles também fazem uma boa avaliação de suas próprias condições de vida, ou seja, em geral mostram-se satisfeitos e realizados. Mas o que realmente impressiona é que as rendas familiar e per capita dos produtores são superiores às médias nacionais, e o nível socioeconômico se mostrou muito acima da média brasileira", avalia o coordenador da pesquisa, professor Luiz Antonio Slongo.

Conforme a Afubra, 144,3 mil das 158,4 mil famílias produtoras de tabaco do país na safra 2015/16 estavam radicadas nos Estados do Sul. Praticamente todos, como Klafke, integrados a uma indústria, "cigarreira" ou processadora e exportadora da matéria-prima. O produtor visitado pelo Valor é um dos 26 mil integrados da Souza Cruz, dona de marcas de cigarro como Dunhill e Free. Outros 8 mil estão na cadeia de fornecimento da Phillip Morris, que faz o Marlboro, e mais de 20 mil estão com a Alliance One, focada na exportação de tabaco – que é amplamente dominada pelo Brasil.

Os embarques da colheita da safra atual, aliás, começaram bem, um sinal que confirma a tendência de recuperação em 2016/17. O volume de fumo em folhas vendido ao exterior – os principais mercados são União Europeia e China, país que lidera a produção mundial – rendeu US$ 225,6 milhões em novembro, conforme dados da Secex/Mdic, 73% a mais que no mesmo mês de 2015. O preço médio foi US$ 5.976 por tonelada, um incremento de 54%.

Iro Schünke, presidente do SindiTabaco, observa, contudo, que o cenário para as exportações já foi melhor. "O câmbio tem influência, mas o mais importante é que a concorrência aumentou muito nos últimos anos. Países africanos, sobretudo o Zimbábue, estão exportando muito mais. Apesar de pouco acentuada, há uma tendência de queda do consumo de cigarros no Brasil, o que torna as exportações do país, o segundo maior produtor global de tabaco, fundamentais para a cadeia produtiva. Em 2015, quando somaram US$ 2,2 bilhões, os embarques representaram 88% da produção, conforme a Afubra. Isso sem contar o contrabando de cigarros, principalmente do Paraguai, que nos cálculos do SindiTabaco equivale a cerca de 35% do mercado brasileiro.

"Esse é o pior problema para a indústria instalada no país", diz o presidente da entidade, que representa 15 companhias (Alliance One, ATC, Brasfumo, China Brasil Tabacos, CTA, Industrial Boettcher, Intab, JTI Kannenberg, JTI Processadora, Phillip Morris, Premium Tabacos, Souza Cruz, Tabacos Marasca, Tabacos Novo Horizonte e Universal Leaf).

Somados à tendência de queda do consumo em virtude dos conhecidos malefícios provocados pelo produto e ao combate ao trabalho infantil, até certo ponto tradicional nas propriedades dos agricultores familiares do Sul – e há anos combatido pelo Ministério Público do Trabalho -, os problemas provocados pelo contrabando também ajudam a cadeia produtiva a estreitar mais seus laços.

Seja na forma de assistência das indústrias a seus fornecedores, como faz a Souza Cruz com o pacote tecnológico de plantio que adianta a Klafke em troca de receitas futuras, seja com ações necessárias até para melhorar a imagem do segmento. Uma delas, conduzida pelo Instituto Crescer Legal (criado por iniciativa do SindiTabaco em 2015), envolve um curso de gestão de propriedades de 920 horas voltado a jovens filhos de fumicultores oferecido em cinco escolas públicas com 20 alunos por turma, escolhidos após uma seleção que leva em conta idade e condição social, entre outros critérios.

"Nesse curso, o foco principal é combate ao trabalho infantil", diz Ana Paula Justen, educadora de referência do instituto em Venâncio Aires. Do ponto de vista de gestão, os resultados até agora são considerados promissores. A reportagem conheceu a turma de alunos do curso ministrado na Escola Municipal Fundamental Coronel Thomaz Pereira, na localidade de Taquari Mirim. Remunerados como jovens aprendizes pelas empresas, todos se mostraram animados com oportunidade de qualificação oferecida.

Por Fernando Lopes | De Santa Cruz do Sul e Venâncio Aires (RS)

Fonte : Valor

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