Produção de celulose ajuda a restaurar Mata Atlântica

André Pessoa/Valor / André Pessoa/Valor
Florestas no sul da Bahia: questão abrange 500 plantadores de eucalipto

Em resposta a um recente estudo indicando que mais da metade dos produtores de eucalipto para indústrias de celulose não tinham suas reservas e áreas de preservação dentro da lei, o Ministério Público iniciou, no Sul da Bahia, um movimento que está se transformando no maior projeto de restauração da Mata Atlântica em curso no país.

"A ideia é replicar os efeitos dos acordos para adequação ambiental, com produção de conhecimento científico e plantio de floresta que não sejam simples cópias de projetos sem critérios adotados em outras regiões do país", afirma Fábio Corrêa, promotor de justiça no município de Teixeira de Freitas (BA).

O ponto de partida foi negociar com as empresas o compromisso de fazer uma análise técnica sobre o potencial de recomposição das matas de seus fornecedores, utilizando equipes de campo capacitadas pelo Laboratório de Restauração e Ecologia Florestal (LERF), da USP, referência sobre o tema no país.

A questão abrange 500 produtores rurais fomentados – aqueles que recebem das indústrias assistência técnica para o plantio do eucalipto, financiamento de mudas e garantia de compra, tendo como obrigação o fornecimento de um percentual da produção. Pelo acordo, quem tiver menos de 50 hectares de eucalipto receberá gratuitamente as mudas nativas para restauração, mas se o produtor tiver mais de 100 hectares terá de pagar por elas.

O Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), no valor total de R$ 30 milhões durante dez anos, gerou um conjunto de iniciativas que culminaram num esforço mais amplo de restauração da floresta: o Programa Arboretum. Idealizadas pela especialista Natália Coelho, do Serviço Florestal Brasileiro, as ações pretendem regenerar inicialmente 20 mil hectares de Mata Atlântica. As mudas serão fornecidas por viveiros de comunidades rurais que estão sendo mapeadas, com prioridade para cultivo de espécies florestais raras, ameaçadas ou que só existem naquele bioma. O objetivo é dar à restauração um viés social, com a criação de uma rede de sementes, o desenvolvimento de cadeias de negócios e o investimento de R$ 2,4 milhões na construção de um prédio com herbário, laboratórios e salas de aula.

Na região, são preservados 350 mil hectares de Mata Atlântica associados a plantios de eucalipto que ocupam áreas de antigas pastagens, em 13 municípios. A tendência é a parcela de vegetação nativa crescer também nas áreas de propriedade das empresas – e não apenas nas terras de fornecedores. Há condicionantes antigos para a licença da expansão dos empreendimentos que ainda não foram cumpridos. "Até 2025 cobriremos com árvores nativas 40 mil hectares de pastagens para atendimento legal", revela João Augusti, gerente de meio ambiente da Fibria.

Hoje 36% das terras da empresa abrigam vegetação natural, formando junto com o eucalipto um mosaico florestal de mais de 100 mil hectares, quase o tamanho da cidade do Rio de Janeiro. A extensão verde praticamente dobra, somando-se as áreas do fomentados, no caso deles cumprirem a lei. "Isso permite ampliar conexões, gerando abrigo e alimento para a biodiversidade".

O primeiro passo para a adequação legal dos fornecedores será o registro das propriedades no Cadastro Ambiental Rural, para então ser realizado o plano de restauração. No total, são 3 mil contratos de fomento envolvendo produtores independentes de 185 municípios, responsáveis pelo abastecimento de quase um terço do eucalipto processado para celulose. Como reforço, o selo socioambiental do Forest Stewardship Council, que exige a conservação de áreas nativas além do que manda a lei e é adotado pelos grandes fabricantes de celulose e papel, chega também aos pequenos fornecedores.

No caso da Suzano, 117 fomentados ganharam até o momento o selo que comprova a origem socioambiental do produto florestal. O projeto é avançar, pois a empresa compra madeira de um total de 1 mil produtores na Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais e São Paulo. Muitos deles precisam se alinhar à legislação e reflorestar, com potencial de turbinar os atuais 16 mil hectares de remanescentes florestais que se regeneram nas propriedades da indústria.

"As nascentes se recuperaram", diz Valmor Catafesta, que preserva 5 hectares de Mata Atlântica ao lado do plantio de eucalipto e instalou uma granja de porcos em lugar da serraria onde o pai processava madeira nativa, em Agrolândia (SC). Ele integra o programa Matas Legais, no qual a Klabin apoia fornecedores para a proteção de rios e criação de reservas. Até o momento foram distribuídas 400 mil mudas, cultivadas no viveiro da Associação de Preservação do Meio Ambiente e da Vida (Apremavi), em Atalanta (SC). (SA)

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Fonte: Valor | Por De São Paulo

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