Prisão de Wesley, da JBS, paralisa vendas no mercado de boi

Silvia Zamboni/Valor

Rebanho bovino na porção goiana do Vale Araguaia: na região e em outros polos importantes do país, as vendas rarearam

Decretada na quarta-feira, a prisão preventiva do empresário Wesley Batista, sócio e CEO da JBS, voltou a paralisar o mercado brasileiro de boi. Como aconteceu em meados de maio, quando a delação premiada dos irmãos Batista veio à tona e a empresa passou a comprar gado bovino com prazo de pagamento de 30 dias, não mais à vista, os pecuaristas estão reticentes em negociar com a empresa, que lidera os abates de gado no país – e cujas operações ainda estavam se adaptando à ausência do comandante, que até o fechamento desta edição permanecia detido.

Dado o peso da JBS no mercado, muitos frigoríficos concorrentes tiraram o pé do acelerador e decidiram esperar até o início da semana que vem para retomar o ritmo normal de compras. Nesse contexto, praças importantes não tinham ontem sequer indicação de preços para a arroba do boi. "Hoje [ontem] está tudo parado. A JBS não está comprando nada e outro grande frigorífico com atuação forte nessa região só tem escala para o dia 25 de setembro", afirmou o pecuarista Antônio Celso Barbosa Lopes, diretor da Associação dos Produtores do Vale do Araguaia (Aprova).

"Houve uma desaceleração geral. Com a JBS fora, os outros frigoríficos também pararam de comprar, para tentar jogar os preços para baixo. É o jogo normal do mercado", disse um dos maiores pecuaristas de Mato Grosso ao Valor. Segundo levantamento da Scot Consultoria, nenhuma das 36 unidades de abate de bovinos da JBS no país estava fazendo compras ontem. Procurada, a companhia, que vinha abatendo cerca de 150 mil cabeças por semana, não comentou.

Segundo Alex Lopes, analista da Scot, a JBS compra cerca de um quarto do gado bovino do país, e a suspensão de compras pode gerar grandes efeitos no mercado. " Mas devemos lembrar que, como ocorreu durante a Operação Carne Fraca, pode ser uma retração de preços de boi gordo] pontual", afirmou ele.

Uma fonte que preferiu não se identificar lembrou que a JBS se acostumou a "acordar", às seis horas da manhã, com uma reunião comandada por Wesley na qual a estratégia de compra de boi é um dos tópicos da pauta. Com a prisão preventiva do executivo, ontem foi um dia atípico e é de se esperar que esta sexta-feira também seja.

Segundo Gustavo Figueiredo, consultor da Agro Agility, nas praças de Presidente Prudente e Promissão, em São Paulo, desde a prisão de Joesley Batista, irmão de Wesley, na segunda-feira, os preços a prazo da arroba já haviam caído de R$ 150 para R$ 147. "A retração foi agravada com a prisão do Wesley", disse. Ele afirmou que alguns poucos negócios estavam sendo fechados ontem por R$ 146 a prazo e R$ 143 à vista.

Conforme o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), o indicador Esalq/BM&FBovespa para a arroba negociada no mercado paulista permaneceu praticamente estável a R$ 143,96, em queda acumulada de 0,7% no mês. Conforme Figueiredo, além de outros grandes frigoríficos terem tirado o pé, muitos pequenos haviam ampliado as compras antes da prisão de Wesley e tendem a também esperar qual será a estratégia da JBS.

O cenário é mais ou menos o mesmo que o observado em meados de maio, quando o mercado demorou algumas semanas para voltar ao normal. E, conforme dados divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o tremor afetou os abates no segundo trimestre do ano, ainda que o principal problema para os resultados no período tenha sido a Operação Carne Franca, deflagrada pela Polícia Federal em 17 de março para investigar casos de corrupção entre fiscais agropecuários e funcionários de frigoríficos.

"Desmembrando o segundo trimestre em meses, vimos que muitos estabelecimentos entraram em férias coletivas em abril por causa da operação. Quando eles retomaram as atividades, em maio, houve a delação [dos executivos da JBS], o que gerou incertezas e afetou as vendas – neste caso, especialmente de bois", confirmou Angela Lordão, gerente de Pecuária no IBGE.

Segundo o instituto, os abates de bovinos somaram 7,42 milhões de cabeças no segundo trimestre, queda de 3,1% ante o mesmo período de 2016. Mas inicialmente era esperado um aumento, já que a oferta de gado melhorou este ano. Os abates de frangos alcançaram 1,43 bilhão de cabeças, queda de 4,5% na mesma comparação. No caso dos suínos, o resultado beirou a estabilidade.

Mais sobre os resultados da pecuária divulgados pelo IBGE em

Por Kauanna Navarro, Fernando Lopes e Bruno Villas Bôas | De São Paulo e do Rio

Fonte : Valor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *