Previ e Petros se articulam para derrubar Abilio da BRF

Ana Paula Paiva/Valor

Ao comentar prejuízo em 2017, Abilio Diniz admitiu erros na gestão da BRF

Após pedirem, no último sábado, a convocação de uma assembleia extraordinária de acionistas para destituir o conselho de administração da BRF e desalojar Abilio Diniz, os fundos de pensão Petros e Previ trabalham nos últimos detalhes para divulgar, já nos próximos dias, a nova chapa do conselho. Ao mesmo tempo, também batalham para angariar os votos dos demais investidores. As fundações já obtiveram adesões de peso, como a da gestora Aberdeen Standard Investiment.

A chapa defendida pelos fundos de pensão terá três executivos que já foram CEOs, disse uma fonte ao Valor. No currículo desses executivos, habilidades diferentes, como gestão de marketing, conhecimento do varejo e passagem pela indústria de alimentos. Para reagir às críticas sobre a governança, Petros e Previ também devem indicar um executivo que "foi uma alta autoridade" na área de regulação.

Além da escolha da chapa do conselho de administração, que tem dez cadeiras, os fundos já pensam em alterações na direção, o que deve ocorrer em um segundo momento caso vençam a disputa com Abilio Diniz. O Valor apurou que um nome forte para o cargo de CEO da BRF é o de José Antonio do Prado Fay, que já esteve no posto entre 2008 e 2013, até ser demitido na reestruturação feita por Abilio. O nome de Fay também foi ventilado para compor o conselho da BRF, mas não estará entre os nomes da chapa, apurou o Valor.

Até aqui, Previ e Petros já asseguraram publicamente ao menos 27% dos votos na assembleia. Essa é a participação somada das fundações e da Aberdeen. De forma reservada, gestores de fundos com participações menores na companhia também declaram apoio à ofensiva de Previ e Petros.

"Estamos alinhados aos fundos de pensão", disse um gestor de uma casa acionista da BRF. "A destruição de valor da companhia é incrível, e os maiores acionistas precisam fazer alguma coisa", completou. Em sua avaliação, caso Abilio seja afastado, amplia-se o leque de executivos que aceitariam comandar a companhia.

A disposição de executivos de aceitarem a espinhosa tarefa de resgatar a BRF, que está bastante endividada, é inversamente proporcional ao grau de conflito entre os sócios. A continuidade da disputa inviabilizaria o plano de qualquer CEO, dizem fontes do setor de carnes. Mesmo porque, como a BRF perdeu muitos talentos para a JBS com a chegada de Abilio, trazer de volta alguns executivos que conheçam a fundo a "longa cadeia viva" da empresa – do pintinho às gôndolas – é algo visto como fundamental. "Mas ninguém virá nessa bagunça", reconheceu uma fonte.

Dado o perfil aguerrido de Abilio, poucos esperam que a disputa se acabe facilmente, e muito menos que seja unânime. Observadores apostam que o empresário pedirá o voto múltiplo na assembleia, com o que eleva as chances de emplacar ao menos um membro no conselho. Ao Valor, uma fonte próxima aos fundos de pensão disse que o período de incertezas por que passará a companhia foi objeto de reflexão. "Mas o consenso é que o risco de manter Abilio é muito maior que o risco afastá-lo", acrescentou.

A interlocutores, porém, Abilio não expôs tanta disposição para encarar uma nova disputa. "É realíssima a possibilidade de ele renunciar", disse uma fonte próxima, ponderando que, em se tratando do empresário, tudo pode mudar num rompante. Procurado, Abilio não quis comentar.

Também há investidores céticos. "Já fomos procurados e estamos avaliando se o melhor para a companhia agora é uma mudança radical, como as fundações querem, ou fazer ajustes", disse um gestor de fundo com ações da BRF que prefere não ser identificado. "Previ e Petros estão com uma visão de longo prazo e de boa governança. Por outro lado, há pessoas competentes hoje na empresa. O CEO é excelente", afirmou.

Há apenas dois meses no cargo, o CEO José Aurélio Drummond é elogiado por alguns investidores. Mas ele entrou numa rota de desgaste. A ideia de Previ e Petros é mantê-lo num primeiro momento, mas trabalhar por sua substituição a médio prazo. "Temos certeza que, com ele, o avião não cai. Mas também não sai do lugar", resumiu fonte próxima.

Pesa contra Drummond o fato de ele ter se alinhado a Abilio no conselho, do qual é membro desde 2017. As fundações estão descontentes porque Drummond não renunciou ao cargo no conselho quando se tornou CEO. A avaliação é que o executivo, em maior ou menor medida, sempre é parte interessada nas decisões do conselho.

Uma incógnita ainda é qual será a posição da Tarpon na disputa. A Tarpon foi fundamental para a chegada de Abilio ao comando da BRF, em 2013, mas a relação estremeceu. Na sexta-feira, Abilio criticou a gestão de Pedro Faria, sócio da Tarpon que foi CEO da BRF até o ano passado. Uma fonte próxima à Tarpon avalia que a gestora, que tem 8% da BRF, já não tem motivos para "lutar" em prol de Abilio.

Também ainda não está claro como as famílias fundadoras da Sadia – os Fontana e os Furlan – votarão. Mas um indício negativo a Abilio pode ser o comportamento do ex-ministro Luiz Fernando Furlan e de Walter Fontana em novembro. Ambos votaram contra a nomeação de Drummond para o cargo de CEO, apurou o Valor. A reportagem não conseguiu localizar Furlan e Fontana para comentar. A participação dos dois clãs familiares está pulverizada em mais de 50 pessoas, que nem sempre votam alinhadas. Quando a Perdigão incorporou a Sadia, em 2009, criando a BRF, as famílias tinham 9% da companhia.

Por Luiz Henrique Mendes e Vanessa Adachi | De São Paulo

Fonte : Valor

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