Pressão vai continuar, estimam FAO e OCDE

Graziano: cotações agrícolas serão afetadas pela desaceleração da demanda
Os preços internacionais dos produtos agrícolas em geral deverão recuar em termos reais nos próximos anos, em razão de aumentos das produtividades e da desaceleração da demanda. Mas, em meio a essa tendência, o Brasil reforçará sua posição de grande fornecedor mundial de alimentos. Foi o que afirmou ao Valor José Graziano da Silva, diretor-geral da FAO, a agência da ONU para agricultura e alimentação. Segundo ele, haverá desvalorizações de 10% a 20%, mas os itens que terão as maiores baixas não foram especificados.

Hoje, Graziano e o secretário-geral da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), Angel Gurria, lançarão o relatório conjunto "Perspectivas Agrícolas 2015-2024", em Paris. "O que temos hoje é redução da atividade [em diversas economias], que reduz emprego e poder aquisitivo. É um ciclo econômico hoje claramente identificado com algo entre dez e 20 anos em que os preços sobem e depois caem. E não está definido se estamos num momento de queda ou num ajuste", afirmou Graziano. E acrescentou: "Seguramente os preços agrícolas não vão subir até novos picos enquanto a crise econômica global não for resolvida. Já temos sete anos desde o início da crise, e não sabemos se teremos mais cinco, sete…", disse ele.

Para o diretor-geral da FAO, a tendência do ciclo econômico atual, em todo caso, é "puxar os preços agrícolas para baixo, exceto se houver grandes crises nos países produtores. Como uma seca, por exemplo". Mesmo assim, a expectativa na FAO é que as cotações agrícolas, que em geral estão mais baixas que em 2014, continuarão em patamares mais elevados que os verificados no início dos anos 2000. O brasileiro destacou dois outros componentes que ajudam a formar os preços agrícolas que a FAO monitora de perto.

O primeiro deles é o aumento da volatilidade no curto prazo, fator que o diretor-geral da FAO considera ruim tanto para o produtor quanto para o consumidor. E Graziano observa que as mudanças climáticas ampliaram essa volatilidade. "Mesmo neste ano, que tem sido um ano bom, temos volatilidade nos preços. Teremos incertezas até o final, pois não sabemos se a colheita nos EUA será boa ou ruim porque não parou de chover". O outro componente é positivo para o produtor. Com o crescimento da renda, aumenta o consumo de proteínas, o que multiplica a demanda por grãos. "Mas os preços podem cair um pouco por efeito do terceiro componente, que é o ciclo econômico", observou ele.

De qualquer forma, o diretor-geral da FAO se declara bastante otimista sobre a possibilidade do Brasil continuar expandindo sua participação no comércio de grãos e carnes, uma vez que a produtividade no país já está bem maior que em concorrentes. Além disso, Graziano não vê espaço para os países desenvolvidos aumentarem os subsídios agrícolas. Pelo contrário: a perspectiva é que haja uma queda nesses apoios, diante das restrições orçamentárias na Europa, por exemplo.

Nesse cenário, FAO e OCDE projetam que o Mercosul, liderado pelo Brasil, será o maior fornecedor de alimentos para atender à demanda adicional por esses produtos no mundo nos próximos anos. "O vetor de crescimento é o aumento da produtividade, e não da fronteira agrícola", disse Graziano. Mas ele vê um certo espaço para a ampliação das áreas de plantio, no Brasil e no Paraguai, por causa da pecuária bovina extensiva. Na medida em que a pecuária se torna mais intensiva, podem ser criadas novas fronteiras agrícolas. "As medidas de proteção ambiental, sobretudo a partir do que sair da Convenção do Clima, em Paris, deverão colocar barreiras cada vez mais fortes ao modo tradicional e depredador de produção", disse.

Conforme Graziano, o mundo agrícola vai logo começar a ouvir falar da "quatro por mil", uma proposta da França que a FAO encampou e está em discussão. A ideia é agregar matéria orgânica no solo, por meio de práticas como não arar a terra e não promover queimadas. A proposta será lançada em outubro.

Fonte: Valor | Por Assis Moreira | De Genebra

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