Pressionada, Dilma suspende a distribuição do kit homofobia

Fonte:  Jornal do Comércio

Para militantes sociais, decisão é um retrocesso e jogo político não pode ficar acima dos direitos humanos

ANTONIO CRUZ/ABR/JC
Gilberto Carvalho anunciou decisão após reunião com deputados.
Gilberto Carvalho anunciou decisão após reunião com deputados.

A presidente Dilma Rousseff sucumbiu à pressão das bancadas religiosas do Congresso Nacional e determinou a suspensão da produção e da distribuição de vídeos e cartilhas contra a homofobia, organizados pelos ministérios da Educação e da Saúde, conhecidos como kit homofobia.
A decisão foi informada ontem pelo ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, a deputados das bancadas evangélica, católica e da família. Os parlamentares ameaçaram obstruir as votações de interesse do governo na Câmara, convocar o ministro da Educação, Fernando Haddad, e apoiar a convocação do ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, para depor a respeito das denúncias de enriquecimento suspeito, caso o material fosse distribuído às escolas.
Segundo Carvalho, a presidente considerou o material inadequado. "O governo mantém sua posição clara contra qualquer tipo de homofobia, e as bancadas também se declararam contra a homofobia. Mas o governo achou prudente não editar esse material", disse. Segundo o ministro, a partir de agora todo o material sobre costumes será feito a partir de consultas mais amplas à sociedade e às bancadas. "Qualquer outro material, daqui para frente, editado pelo governo sobre a questão de costumes passará pelo crivo amplo da sociedade e das bancadas interessadas", afirmou.
O coordenador-geral da ONG Somos – Comunicação, Saúde e Sexualidade, Luiz Felipe Zago, acredita que o recuo da presidente traz grandes prejuízos para a luta contra a homofobia. Para ele, a justificativa de que a produção de conteúdos sobre o tema precisaria de mais debate é apenas uma desculpa. "Os homossexuais, bissexuais e transgêneros evadem a escola em alto número em razão da violência. Isso de ouvir todos os lados é um argumento falacioso. O material foi produzido em conjunto e muito discutido", diz.
Para Zago, o conteúdo dos vídeos e cartilhas não foi o principal responsável pelo barramento da iniciativa. "Qualquer material que tivéssemos feito sofreria pressões desse tipo. Ele é um material muito bom do ponto de vista teórico. Mas a bancada evangélica cresceu 60% na atual legislatura. Do outro lado só há o Jean Wyllys (P-Sol – RJ). Um deputado contra uma bancada fundamentalista", enfatiza.
O coordenador-geral do Nuances – Grupo pela Livre Expressão Sexual, Célio Golin, define o recuo da presidente como um retrocesso. Para ele, é difícil que temas como esses avancem quando se tornam objeto de barganha política. "O preconceito existe no ambiente escolar e isso tem de ser enfrentado. É obrigação do Estado enfrentar isso", observa. Golin acredita que a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) reconhecendo a união estável de casais homossexuais foi o estopim para a reação das camadas mais conservadoras da sociedade. "Essas pessoas tinham no Judiciário, no STF, uma garantia de suas posições. Com a decisão, esse balizamento caiu", diz.
Segundo Gilberto Carvalho, a presidente "assistiu ao vídeo e não gostou". Dilma vai conversar com os ministros da Educação e da Saúde sobre a reformulação do conteúdo. "Ela acha que o vídeo era impróprio para o seu objetivo", afirmou.
O líder do Partido da República (PR) na Câmara, Lincoln Portela (MG), disse que a preocupação dos parlamentares das bancadas religiosas é com a "didática do material". Na avaliação deles, o material induz à homossexualidade. Ele afirmou que, diante da posição do governo, os evangélicos seguirão dando apoio às questões do governo na Câmara.
O deputado Jean Wyllys se disse decepcionado com a posição de Dilma. "A presidente é inteligente e sabe que os assassinatos brutais de homossexuais, que chegam a mais de 200 por ano, estão diretamente ligados aos discursos de ódio", afirmou em nota.
Golin critica o fato de questões religiosas interferirem em políticas de Estado no Brasil. Para ele, religião é uma escolha de cunho pessoal. "O todo não pode depender de posições religiosas. Somos um estado laico", ressalta.
O coordenador da Somos lamenta que todo o trabalho de estudo, pesquisa e produção do material não chegue às escolas. "Dinheiro público foi investido nisso e por jogadas políticas o material pode se perder", conclui Zago.

COMENTÁRIOS

Anna Ribeiro – 26/05/2011 – 00h42

Chamar a bancada evangélica,ou de outra religião de ¨FUNDAMENTALISTA¨para mim é preconceito! O Ministro da Educação deveria preocupar-se é com o baixo nível do ensino público,em geral! Porém isto eles ignoram.