Pressões sobre o IPCA vão além da alta de preços dos alimentos

O comportamento dos núcleos de inflação nos últimos meses mostra que a recente pressão sobre os preços não se limita ao aumento expressivo de alimentos. Medidas que procuram excluir ou reduzir a influência dos itens mais voláteis, os núcleos do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) voltaram a ganhar força. Nos 12 meses até setembro, eles acumulam alta na casa de 5,5%, acima dos 5,28% registrados pelo índice "cheio" no mesmo período.

A elevada inflação de serviços (como aluguel, mensalidades escolares, cabeleireiro, conserto de automóvel e empregado doméstico) é uma das principais explicações para os núcleos pressionados, dizem analistas.

Nos 12 meses até setembro, os serviços estão em alta de 8,52%, num cálculo do economista Fabio Romão, da LCA Consultores, que considera também para os meses de 2011 a nova classificação do Banco Central para esse grupo, que passou a incluir a partir deste ano alimentação fora do domicílio e passagens aéreas. Romão nota que os serviços já tiveram alguma descompressão neste ano, mas seguem em níveis elevados, devendo fechar 2012 em 8,4%, segundo ele. Em 2011, a alta foi de 9,7%.

A economista Basiliki Litvac, da MCM Consultores Associados, lembra que o mercado de trabalho segue aquecido, o que abre espaço para reajustes mais salgados dos serviços. Além disso, alguns dos itens desse grupo são fortemente influenciados pela inflação passada, como aluguel, cuja maioria dos contratos é corrigido pelo Índice Geral de Preços de Mercado (IGP-M), observa Basiliki.

Romão lembra ainda que o item empregado doméstico sobe com força, devido à escassez de oferta de mão de obra e ao fato de que o reajuste do salário mínimo neste ano, referência para a categoria, foi muito elevado, superando 14%. Esse item aumentou 1,24% em setembro, acumulando alta de 14,06% em 12 meses.

"A economia cresceu pouco em 2011 e 2012, mas o mercado de trabalho segue muito apertado. Isso pressiona os serviços", diz o economista Fabio Ramos, da Quest Investimentos. A taxa de desemprego, enfatiza ele, segue nas mínimas históricas.

A pressão sobre a inflação, desse modo, não se restringe ao grupo alimentos e bebidas, que subiu quase 10% nos 12 meses até setembro. Com isso, os núcleos de inflação continuam em níveis bastante elevados.

O núcleo por exclusão, que tira dez itens de alimentação no domicílio e dois tipos de combustíveis, subiu 0,47% em setembro, em alta de 5,3% em 12 meses. Mesmo nessa medida, alguns itens de alimentação em casa não são excluídos, destaca Basiliki. É o caso de farinhas, carnes e peixes industrializados, panificados e bebidas, que tiveram aumentos expressivos. Os dois últimos itens, por exemplo, subiram 8,08% e 11,73% nos 12 meses até setembro, pela ordem.

O chamado núcleo por médias aparadas com suavização, que elimina as 20% de maiores altas e baixas e dilui em 12 meses alguns itens, como preços administrados, está em alta de 5,74% nos 12 meses até setembro.

São todos números consideravelmente acima do centro da meta perseguida pelo Banco Central (BC), de 4,5%. Eles não apontam uma trajetória explosiva para a inflação, mas evidenciam a dificuldade de se reduzir os índices de preços no Brasil. Mesmo num ano em que a economia deve crescer pouco – cerca de 1,5% -, os núcleos oscilam na casa de 5,5%.

Para Romão, o grau ainda elevado de indexação da economia brasileira tem peso importante para explicar esse comportamento da inflação, que teima em não cair para níveis mais baixos. Muitos preços têm nos índices inflacionários passados uma referência poderosa, diz ele. É o caso dos aluguéis e de algumas tarifas públicas.

Romão espera que o IPCA feche 2012 em 5,4%. Basiliki trabalha com uma alta de 5,3% e Ramos, de 5,5%

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Fonte: Valor | Por Sergio Lamucci | De São Paulo

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