Preços de grãos caem ao patamar de 2006

Colheita de soja em Ohio (EUA); com perspectiva de redução da área e avanço das cotações de óleo e farelo, investidores apostam na alta do grão em Chicago
O dólar ainda forte em comparação a outras moedas e relações entre ofertas e demandas globais em geral confortáveis levaram os preços da maior parte das principais commodities agrícolas negociadas pelo Brasil no exterior a perderem um pouco mais de sustentação entre janeiro e março.

De acordo com cálculos do Valor Data baseados nas médias trimestrais dos contratos futuros de segunda posição de entrega negociados nas bolsas de Chicago (soja, milho e trigo) e Nova York (açúcar, algodão, cacau, café e suco de laranja), a maior erosão afeta os mercado de milho e trigo. Nos dois casos, é o pior primeiro trimestre em uma década.

Na soja, a média de preços do trimestre que chega ao fim é a mais baixa para um intervalo de janeiro a março desde 2007, ao passo que açúcar, café e algodão registram as menores médias desde o primeiro trimestre de 2009. O suco fecha o período com o pior resultado desde o ano de 2013, e a exceção é o cacau, que tem o melhor primeiro trimestre desde 2011.

Nos mercados nos quais o Brasil se destaca como grande exportador (soja, milho, açúcar, café e suco de laranja), o câmbio tem compensado pelo menos parte das perdas dos produtores com os preços internacionais – até porque o dólar e os preços nos EUA costumam caminhar em direções opostas, o que ajuda a manter a competitividade dos produtos americanos.

Mas, como a relação entre dólar e real carrega consigo uma grossa camada de gordura gerada pela crise política emanada de Brasília, essa "compensação" já foi maior, uma vez que a moeda brasileira ganhou fôlego nas últimas semanas com a expectativa de impedimento da presidente Dilma.

Mas esse relativo fortalecimento da moeda brasileira nas últimas semanas, ainda que em meio a uma forte volatilidade, também ofereceu maior sustentação particularmente às cotações de açúcar e café, mercados nos quais o peso do Brasil no mercado global é maior que nos grãos, por exemplo.

Essa influência foi gritante em março (este balanço foi fechado no dia 30), quando a cotação média do dólar caiu para R$ 3,71 (Ptax), 6,6% abaixo da média de fevereiro. Com esse impulso, as incertezas em relação à oferta brasileira geradas pelo clima e a expectativa de produção menor que a demanda global nas safras internacionais 2015/16 e 2016/17, em Nova York o preço médio do açúcar subiu 15,65%. Já o café registrou alta de 6,74% na comparação.

Não fosse por isso, o açúcar não teria registrado elevação de 0,70% na bolsa de Nova York no primeiro trimestre, sobre o mesmo intervalo de 2015, e a retração média do café teria superado os 21,92% registrados. Na comparação entre os primeiros trimestres, apesar da valorização do real neste mês de março, a alta do dólar sobre a moeda brasileira chega a 36,15%, segundo cálculos do Valor Data.

Nos três primeiros meses deste ano em relação a igual período do ano passado, também registram quedas na bolsa de Nova York o suco de laranja (0,91%) e o algodão (4,02%). Apenas o cacau aparece com elevação (2,3%), graças a problemas com a oferta no oeste da África. Em Chicago, a soja cai 11,36%, o trigo recua 10,04% e o milho apresenta baixa de 6,46%.

Por Fernando Lopes, Mariana Caetano e Fernanda Pressinott | De São Paulo

Fonte : Valor

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