Preços da carne disparam nos frigoríficos

Alta na cotação da matéria-prima chega a 20% desde outubro, e consumidor paga cada vez mais pelo produto

Patrícia Comunello

O ano começou com patamar elevado nos preços dos bovinos abatidos na indústria e na carne que chega ao consumidor, principalmente nos cortes de primeira e os mais requisitados no churrasco. Monitoramento do Núcleo de Estudos em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e Cadeia Produtiva (Nespro), ligado à Ufrgs, revela que o quilo do boi vivo e o do rendimento da carcaça chegou a subir 20% entre fim de outubro de 2014 e o dia 21 deste mês, data da última pesquisa em frigoríficos localizados em diversas regiões gaúchas. Os analistas do Nespro opinam que dificilmente o cenário de preços se alterará muito, com maior recuo, pois os próximos meses são de menor oferta de bois.

Reforça a projeção o fato de uma valorização que chegou a 11% somente em dezembro de cortes mais procurados. Para a equipe do Nespro, a condição da cadeia do mercado indica que 2015 estreia com patamar elevado de preços. Segundo o médico veterinário e especialista em agronegócio Eduardo Antunes Dias, a correção de tabelas para cima contribuiu para colocar fogo no assado. Os preços de cortes mais populares no churrasco (picanha, maminha e entrecot) acumularam aumento de 11% no quilo entre final de novembro e o mês passado. “Foi a metade da inflação da carne vermelha em todo o ano, que subiu 22,21%, segundo o IBGE”, contrasta Dias.

O fim de ano é marcado pelo consumo superaquecido nos cortes, observa Dias, o que abriria espaço para a cadeia produtiva e de comercialização engordar suas margens. Na hora do churrasco, as maiores altas foram do quilo da maminha (11,7%), do entrecot (11,4%) e da picanha (11%). Outras carnes de traseiro do boi – moída de primeira e alcatra – subiram, em média, 7%. “Era esperado, porque as pessoas fazem mais churrasco e, consequentemente, os estabelecimentos elevam os preços”, explica o médico veterinário. Ajuda a valorizar o produto o fato de os gaúchos dificilmente abrirem mão da tradição à mesa, reforça o pesquisador. Menos cobiçadas, porque pode suportar a conta dos cortes de primeira, as opções do dianteiro – acém e carne moída de segunda – tiveram preços estáveis, com alta de 0,1%,

Passadas as festas, o Nespro detectou que os mesmos cortes, em alguns dos estabelecimentos pesquisados (oito em Porto Alegre), apresentaram leve redução de preço, segundo o informe do dia 19. Ao recorrer à disponibilidade de matéria-prima, o especialista em agronegócio lembra que os três últimos meses respondem por 38% da carne processada nos frigoríficos e que é vendida a supermercados e açougues. Dados disponíveis dos abates no Estado de 2010 a 2013 e analisados pelo Nespro confirmam que o trimestre responde por quase 40% do volume anual processado pelas plantas. “A indústria e o varejo falaram que havia pouca oferta de carne, mas é o período de safra e isso não tem se alterado nos últimos anos”, confronta Dias.

Para reforçar a tese de que houve um ganho maior do produtor ao varejo na demanda mais aquecida, o Nespro cita que os preços ao consumidor entraram mais estáveis em janeiro. O comportamento dos preços, segundo Dias, pode refletir o desaquecimento nas compras de carne vermelha pelas famílias, que buscam outras opções (frango ou suíno) para reduzir a despesa. “Mas o que chama a atenção é que o patamar de preços a cada ano se eleva, e dificilmente vai baixar muito, pois o mercado está valorizado internamente e nas exportações”, completa o especialista.

As vendas ao exterior em 2014 comprovam que os volumes e receitas com carne bovina cresceram. A Fundação de Economia e Estatística (FEE) apontou, na semana passada, que o fluxo subiu 32% em volume (18,1 milhões de toneladas, ante 13,7 milhões de 2013) e 30,7% na receita, terminando o ano com US$ 74,5 milhões. A carência de matéria-prima, cuja oferta mensal de janeiro e abril oscila entre 6% e 7% dos abates do ano, foi apontada pelo grupo Marfrig como a principal razão para fechar a unidade de Alegrete. Dias avalia que a transferência do processamento dos animais aos frigoríficos de São Gabriel e Bagé, também do Marfrig, manterá inalterado o nível dos abates estaduais (pouco mais de 2 milhões de cabeças ao ano) e da própria companhia.

Frigorífico Minuano pode ser interditado amanhã por falhas em suas instalações

A Companhia Minuano de Alimentos, em Lajeado, no Vale do Taquari, poderá ter seu frigorífico interditado amanhã, caso não solucione, até hoje, problemas em máquinas, equipamentos, instalações e condições ergonômicas de trabalho. O alerta foi feito pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), durante reunião conjunta com o Ministério Público do Trabalho (MPT) e o diretor-presidente da empresa, Marcelo Tozzo Alfredo.

Durante o encontro realizado na própria fábrica, a Minuano negou-se a assinar acordo com o MPT e o MTE. O documento previa adequações na rotina do trabalho e concedia prazos legais. A situação é resultado da 10ª operação da força-tarefa estadual que investiga meio ambiente do trabalho em frigoríficos avícolas. A direção da Minuano recebeu duas notificações. O cronograma da força-tarefa seguirá, a partir de março, com os frigoríficos bovinos e suínos.

A empresa abate 175 mil frangos por dia, destinando quase 100% da sua produção para atender à linha de produtos da BRF, com exceção de corações e fígados. Com capital aberto desde 2006, emprega 1.745 trabalhadores, que se revezam em dois turnos de 8h48min cada, de segunda a sexta-feira. Cada trabalhador faz intervalo de 60min (almoço ou janta) e tem mais 60 minutos de pausas diárias (dentro da jornada), divididas em quatro períodos variáveis, atendendo à Norma Regulamentadora (NR) 36. O salário inicial é de, aproximadamente, R$ 1.300,00, entre o piso da categoria, de R$ 1.000,00, e os benefícios.

Fonte: Jornal do Comércio

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