Preço desestimula produção de feijão

Ruy Baron/Valor

Produção irrigada de feijão em Unaí (MG): na região, a leguminosa deverá perder espaço para o cultivo de milho

Com preços ao produtor em baixo patamar, o feijão tende a perder espaço para culturas mais rentáveis nesta temporada 2018/19. Dada a estabilidade do consumo doméstico, porém, a queda da oferta, que tende a ser modesta, não deverá exercer pressão expressiva sobre a inflação, pelo menos nos primeiros meses do ano que vem, conforme especialistas ouvidos pelo Valor.

De acordo com levantamento do Instituto Brasileiro de Feijão e Pulses (Ibrafe), o preço médio da leguminosa caiu 24,5% em agosto na comparação com o mesmo mês de 2018 no país. Em um ano de baixa rentabilidade – em muitos casos, a receita não cobriu os custos -, foi o auge do cenário negativo, e justamente no momento de decisão do plantio da primeira safra. São três safras de feijão em uma mesma temporada, e a primeira começará a ser semeada em outubro próximo.

Embora ainda não tenha divulgado estimativas para essa primeira safra, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) indicou, em seu último relatório sobre o ciclo 2017/18, divulgado no início deste mês, que "a boa oferta nas safras atuais de primeiro e segundo ciclo refletiram-se na intenção de redução de área agora [terceira safra da temporada 2017/18] e no verão [primeira safra de 2018/19]".

Na terceira safra de 2017/18, cuja colheita está na reta final, o feijão foi semeado em 589 mil hectares no país, 8,3% menos que no mesmo período de 2016/17. A colheita deverá somar 619,2 mil toneladas, com queda de 26,1%.

Como a intenção é também de recuo na primeira safra de 2018/19, o consumidor poderá encarar um aumento do preço do feijão carioca nas prateleiras do supermercado no início do ano que vem. Mas nada que pressione a inflação, diz Marcelo Lüders, presidente do Ibrafe. "Temos a colheita da terceira safra e os estoques de inverno, mas isso não é suficiente para garantir o consumo até janeiro e fevereiro. Teremos um aumento de preços, mas leve", disse.

Essa expectativa não tem animado os produtores, e muitos que estavam dedicados ao feijão nesse mesmo período do ano passado já decidiram partir para o milho, cujos preços domésticos estão atraentes. Segundo a consultoria Céleres, a área de plantio de milho crescerá mais de 200 mil hectares neste verão pela primeira vez desde 2005/06 e alcançará 5,8 milhões de hectares.

"Além de o milho ter subido muito de preços neste ano, a rotação do feijão com o cereal é melhor para o solo do que com a soja. O milho é uma gramínea, enquanto a soja e o feijão são leguminosas e desgastam mais o terreno", diz Valter Tomaz Correa, diretor de agricultura do Sindicato Rural de Unaí, em Minas Gerais, uma das principais regiões produtoras de feijão do Brasil.

O polo mineiro conta com cerca de 160 mil hectares para o cultivo de grãos de verão, e 70% dessa área costuma ser ocupada pela soja. Em 2018/19, Correa calcula que 25% da área restante será semeada com milho e apenas 5% com feijão. "Cada produtor que eu converso diz que vai manter apenas um pedaço pequeno de área neste ano", afirma.

Também o cultivo de sementes de milho está disputando terreno com o feijão em Unaí. Na região, o preço da semente está entre 10% e 20% superior à cotação do grão. "Há muitas sementeiras grandes em Unaí, como Syngenta e Bayer, e elas estão oferecendo um bom prêmio neste momento para as sementes", diz Correa.

Em São Paulo, um dos cinco maiores Estados produtores do país, a expectativa também é de recuo de pelo menos 2% na área destinada ao feijão na primeira safra. Nas três safras da temporada 2017/18, o Estado plantou, no total, 66,7 mil hectares, 1,6% menos que em 2016/17, segundo o Instituto de Economia Agrícola (IEA). "Em Itapeva, onde o cultivo de feijão também é tradicional, a perda de área já foi bem maior em 2017/18 e poderá ser maior este ano", diz o coordenador de grãos do IEA, José Roberto da Silva.

Dari Fronza, produtor de Silvanópolis, em Tocantins – importante Estado produtor na terceira safra -, conta que perdeu muito dinheiro neste ano e está desanimado. O preço médio recebido pela saca, segundo ele, ficou em R$ 70, ante R$ 110 ao longo de 2017.

"Precisaria ser pelo menos R$ 160 a saca para cobrir meus custos de produção", afirma Fronza. Assim, diz, manterá a leguminosa apenas no pivô central de sua propriedade, que cobre 200 hectares. No total, entre propriedades próprias e arrendadas, ele e seus três irmãos têm 6,4 mil hectares em Silvanópolis.

Lüders, do Ibrafe, acredita que o interesse pelo feijão vai aumento ao longo de 2019, e que a segunda e a terceira safras poderão aumentar. "Se os preços pagos de fato subirem, o produtor se anima para o inverno", observa.

Ele também defende como alternativa aos preços ruins do carioca a produção de outras variedades, como caupi, rajado e mungi. "Enquanto o preço médio do carioca ficou em R$ 100 nos últimos meses, o do rajado atingiu R$ 130. E valeu a pena, porque o custo de produção é pouca coisa maior e o ciclo de produção é 15 dias mais curto. Em média, a margem para o produtor de rajado ficou em 30%".

Fronza, de Tocantins, pretende cultivar caupi para exportação e um pouco de grão-de-bico no próximo ano, para testar esses mercados. O rajado também não é descartado. "Mas isso tudo é intenção para o inverno", diz.

Por Fernanda Pressinott | De São Paulo

Fonte : Valor