Preço baixo contém avanço da soja no Paraguai

Campo de soja do produtor Sergio Pires de Almeida no Departamento de Canindeyú: sem redução de área em 2015/16
Os baixos preços da soja no mercado internacional tendem a frear o avanço do plantio do grão no Paraguai nesta safra 2015/16, quebrando uma sequência de pelo menos uma década de expansão da área. E, ainda que o clima favorável tenda a sustentar uma boa produtividade, é crescente a preocupação com o endividamento dos agricultores do país, quarto maior exportador mundial da oleaginosa.

"Muitos produtores tinham se programado para cotações mais elevadas, investiram em infraestrutura e acabaram levando um balde de água fria", diz Karsten Friedrichsen, presidente da APS, associação que representa os sojicultores locais. Na última década, segundo ele, a soja ganhou de 150 mil a 200 mil hectares por ano no Paraguai. Agora, a expectativa é que os agricultores mantenham a semeadura – já praticamente concluída – em torno dos 3,5 milhões de hectares do ciclo passado e aumentem a área apenas em 2017/18. "Até lá, a expansão deve ficar praticamente em zero".

O produtor Sergio Pires de Almeida, de Corpus Christi, no Departamento de Canindeyú, é um dos que manterão a área do último ciclo, de 600 hectares. Juntos, os departamentos de Canindeyú, Itapúa e Alto Paraná respondem por 60% a 65% da produção de grãos do Paraguai.

Descendente de brasileiros que rumaram para o país vizinho na década de 1970, Almeida é o típico produtor de soja paraguaio. Os chamados "brasiguaios" – como os pais dele, vindos de Apucarana (PR) – chegaram ao país quando o cultivo de soja já estava estabelecido, mas modernizaram a produção.

Influenciada por esses imigrantes, a produção paraguaia de soja tornou-se quase uma "extensão" da brasileira, inclusive para as grandes tradings. E mesmo o modelo cooperativista do Brasil passou a ser replicado no país: Almeida é associado à paranaense, que há alguns anos estendeu sua área de atuação para lá.

A janela de plantio da soja no Paraguai se abre no início de setembro, pouco antes que no Brasil, e a colheita começa em janeiro. Sem estiagem severa há quatro anos, o país deverá ter novamente de uma boa safra, embora ainda seja preciso aguardar o comportamento do clima entre dezembro e janeiro – quando uma eventual seca mais prolongada poderá ser fulminante para a produção.

A APS prefere não divulgar projeções, mas a expectativa do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) é otimista para o Paraguai. O órgão prevê uma colheita de 8,8 milhões de toneladas em 2015/16, 9% acima da safra anterior. Mais da metade (4,6 milhões de toneladas) deve ser encaminhada ao exterior, o que coloca o país atrás apenas de Brasil, EUA e Argentina no ranking global de exportadores da commodity.

Tamanho protagonismo se reflete também na balança comercial: o "complexo soja" (grão, farelo e óleo) respondeu por 40% da receita total das exportações paraguaias em 2014, ou US$ 3,89 bilhões.

Mas, para Friedrichsen, o momento é de alerta. Isso porque em torno de 30% dos produtores de grãos paraguaios estão com dívidas "acima do normal". Os gastos inflaram nos últimos anos com a conversão de áreas da pecuária e os investimentos na melhoria do solo e em maquinários. "O agricultor às vezes alega que não ganha dinheiro, mas o problema é que gastou demais".

Esse quadro de endividamento guarda alguma semelhança com o de grande produtores do Centro-Oeste do Brasil, embora por aqui empréstimos concedidos aos agricultores em dólar tenham encarecido muito com a disparada da moeda americana ante o real. No Paraguai, as operações já são habitualmente feitas em dólar, sem a necessidade de conversão para a moeda local.

Como sofrem menos o câmbio, os paraguaios também não enfrentaram uma mudança radical nos custos de produção. Conforme Friedrichsen, o gasto para implantar um hectare de soja varia de US$ 480 e US$ 600 (algo entre R$ 1,9 mil e R$ 2,4 mil) em 2015/16, similar ao ciclo passado e dentro do custo médio de R$ 2.210 por hectare estimado para Mato Grosso.

No que tange aos preços, porém, o câmbio não ajuda, como acontece no Brasil, e a direção é ladeira abaixo, na esteira do recuo na bolsa de Chicago. Segundo Wilfrido Hempel, gerente comercial de cereais e oleaginosas da Cooperativa Colonias Unidas, a maior do país na área agrícola, há atualmente ofertas ao produtor de US$ 280 a US$ 295 por tonelada, ante as médias de US$ 310 da safra 2014/15 e US$ 410 de 2013/14.

A cotação da soja no Paraguai é formada com base no preço de Chicago, descontado o frete para exportação, que varia de US$ 40 a US$ 90 por tonelada. Sem saída para o mar, o país concentra o escoamento pelos rios Paraná e Paraguai, com destino a portos do Uruguai e da Argentina.

A Colonias Unidas espera movimentar até 400 mil toneladas de soja nesta temporada, das quais 160 mil direcionadas à exportação (o restante é vendido no mercado interno ou processado pela cooperativa).

O fato é que as cotações menos atraentes têm afugentado as negociações antecipadas da produção. "Alguns já venderam 10% ou 15% da safra. Mas eu não vendi nada", afirma Almeida. De acordo com ele, os preços precisariam passar dos atuais US$ 16 para US$ 18 por saca (US$ 300 por tonelada) para que as vendas destravassem.

Almeida prevê colher de 58 a 63 sacas do grão por hectare nesta safra – acima do intervalo de 47 sacas a 53 sacas conseguido por um produtor médio do Paraguai. "Temos que alcançar ao menos 51 sacas em 2015/16 para garantir os custos da lavoura", observa ele.

E, ainda, que nesta temporada se confirme um cenário de poucas alterações na área semeada, a perspectiva é de que ainda haja espaço para um salto considerável do plantio no Paraguai. A APS calcula que nos próximos 10 a 15 anos o país poderá quase duplicar a área, dos atuais 3,5 milhões para 6 milhões de hectares.

Por Mariana Caetano | De São Paulo

Fonte : Valor

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