Preço do trigo sobe, mas custos para o plantio preocupam produtores

A variação do dólar e a queda da produtividade das safras de verão devido à estiagem estão trazendo preocupação aos produtores que preparam o plantio das lavouras de inverno, especialmente o trigo. Com os preços dos insumos subindo devido ao câmbio (há um mês o dólar está acima de R$ 5,00) e as perdas de rendimentos geradas pela seca, os agricultores gaúchos deverão ter cautela ao planejar os cultivos, que se iniciam no próximo mês e vão até julho.
“O produtor tem um jogo de xadrez interessante pela frente”, alerta Hamilton Jardim, coordenador da Comissão de Trigo da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul). “Os preços oferecidos pelo trigo estão muito bons, devido à alta do dólar. No entanto, os insumo também oscilaram muito, especialmente os adubos, que, em 10 dias, chegaram a subir 20%. Isso encarece demais o custo de produção”, explica Jardim.

Segundo o coordenador, para alcançar uma boa produtividade de trigo na safra que irá iniciar o produtor, hoje, teria que investir cerca de R$ 2,4 mil por hectare plantado. “Isso significa que ele precisa alcançar um preço de venda em torno de R$ 55,00 por saca, com uma produtividade de 60 sacas por hectare de trigo de boa qualidade, para garantir algum lucro”, explica.

Entretanto, mesmo com a elevação de preços de insumos devido ao câmbio, o cenário é favorável para a cultura. “O trigo está sendo vendido acima de R$ 50,00 a saca, enquanto, no passado, era comum obter R$ 35,00. O poder de troca do produtor está forte”, afirma Paulo Pires, presidente da Federação das Cooperativas Agropecuárias (FecoAgro-RS). Segundo Pires, havia grande otimismo para a cultura neste ano, inclusive com expectativa de aumento de área plantada – que, no ano passado, de acordo com a Emater, alcançou 757 mil hectares, crescimento de 6,4% ante 2018.

Além disso, os preços pagos pelo grão estão subindo acima da valorização cambial. De acordo com a consultoria Safras e Mercado, enquanto o dólar comercial subiu cerca de 25% em três meses, o preço de referência da tonelada do trigo no Rio Grande do Sul aumentou 37% entre a primeira semana de janeiro e a primeira semana de abril, passando de R$ 730,00 para R$ 1 mil. “Isso se deve tanto pelo cenário cambial quanto por uma redução de oferta disponível, com grande parte dos excedentes exportáveis da Argentina tendo sido negociados de maneira antecipada ao normal”, explica o analista Jonathan Pinheiro, da Safras e Mercado.

Segundo Pinheiro, a tendência é de que esse patamar elevado para os preços do trigo deva continuar ao longo do ano. “Talvez isso não represente um ganho considerável de área de plantio, até tendo em vista a redução de renda do produtor devido à quebra da safra de verão.

Mas o trigo nacional tem um ganho de competitividade considerável frente ao importado, e, com preços mais altos, os triticultores, apesar dos custos mais elevados, podem enxergar com bons olhos investir na cultura”, aponta o analista.

Hamilton Jardim, da Farsul, também está otimista. “Os cenários, tanto de clima quanto de preço, estão bons. Não vejo condições para os valores do trigo caírem tão cedo, mas não sabemos como vai estar a situação em novembro”, destaca. O coordenador da comissão da Farsul lembra que algumas cerealistas e cooperativas já estão travando preços para entrega futura em torno de R$ 51,00 a saca, valor que pode ser depreciado caso o produto não atinja a qualidade estipulada.

Devido a essa preocupação com a qualidade do grão, Jardim também alerta aos produtores que, embora os preços dos insumos estejam altos, não sejam feitos cortes no uso de tecnologia para as lavouras.

“A rentabilidade depende muito de uma produção de qualidade.

Usar sementes e insumos inferiores para economizar agora só vai gerar um ganho ainda

Fonte:  Jornal do Comércio