‘Precisamos desambientalizar a Rio+20’

Diretor-presidente do Sebrae acha que Conferência vai ajudar a pôr na superfície o tema sustentabilidade

Pesquisa feito no ano passado com 3.058 empresários de empresas de micro e pequeno porte do país deu conta de que a maioria (58%) afirma não possuir conhecimento sobre os temas sustentabilidade e meio ambiente. Apesar disso, 72% entendem que suas firmas devem atribuir alta importância à questão e 79% acham que as empresas que adotam ações de preservação do meio ambiente podem atrair mais clientes. Este resultado levou os dirigentes do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) a concluírem que é preciso esclarecer melhor seu público.

Uma grande oportunidade para isso será a Rio+20, da qual o Sebrae será um dos patrocinadores. Para o diretor-presidente da instituição, Luiz Barreto, vai ser a chance de introduzir de fato na agenda cotidiana das micro e pequenas empresas a pauta da sustentabilidade. Nessa entrevista, ele conta como o Sebrae, ou melhor, como as micro e pequenas empresas se tornaram tão importantes para o sistema econômico atual, a ponto de terem sido procurados pela ONU para fazer o convênio para a Rio+20.

Hudson Pontes O GLOBO: O que o senhor acha que atraiu o olhar das Nações Unidas para o Sebrae? LUIZ BARRETO: Acima de tudo porque a Rio+20 não vai focar somente o meio ambiente, ela vai focar o desenvolvimento sustentável. E entender desenvolvimento sustentável é entender também que a perna da inclusão é fundamental. Inclusão significa saneamento, educação, uma série de temas que têm que ser levados em conta. Significa também ter programa de compensação de renda, pensar o espaço urbano de maneira diferente.

Acho que a experiência brasileira de inclusão social e produtiva chama atenção.

O GLOBO: E de que forma o Sebrae ajuda na inclusão social? LUIZ BARRETO: Ajudamos as pessoas que querem ser empresários, ter CNPJ, benefício para a família, auxilio maternidade. Nos últimos dois anos, dois milhões de brasileiros tornaram seus negócios legais. Hoje o empreendedorismo é uma porta de saída inclusive para os bolsistas do programa Bolsa Família, já identificamos isso através de um convênio que fizemos com o Ministério do Desenvolvimento Social (MDS). Eles nos deram a lista dos bolsistas, nós cruzamos os dados e descobrimos que tem mais de 120 mil brasileiros bolsistas, que se tornaram empreendedores e que, futuramente, vão até sair do programa se os seus negócios tiverem sustentabilidade.

O GLOBO: Bem, mas segundo a pesquisa que vocês fizeram é difícil para esses empreendedores entenderem a importância da preservação do meio ambiente até para seus negócios…

LUIZ BARRETO: Nosso papel é exatamente trazer à tona este assunto, e a Rio+20, neste sentido, vai ser muito importante porque durante três, quatro meses, todo mundo vai ficar falando sobre este assunto. Vai aumentar nossa possibilidade de dialogar com nossos clientes que estão ainda desatentos ao tema. Se ficarmos no debate teórico, o pequeno empreendedor vai responder que não entende muito desse negócio de sustentabilidade, não vai se interessar. É preciso traduzir para a oportunidade que o mercado apresenta, as tendências do consumidor, do cliente, que cada vez mais vai exigir posturas nessa direção. O pequeno empresário está no balcão, para chamar a atenção dele tem que mostrar uma relação de custo/benefício para que ele possa vislumbrar um futuro promissor. Aí ele começa a entender mais. O negócio do pequeno empreendedor é muito pragmático, tem que ter concretude para trazê-lo para o tema.

O GLOBO: Dá um exemplo dessa concretude? LUIZ BARRETO: A questão de alimentos, que é um tema forte. Trabalhamos muito comAGRICULTURA FAMILIAR e é evidente, hoje, que a tendência das classes médias urbanas é de consumir produtos orgânicos. Quanto mais a pequena empresa se esforçar em entender os diferentes nichos de mercado, mais vai lucrar. E ensinamos também que lucrar não é proibido nem feio: é necessário. Outro exemplo é um lavajato. Se ele passar a reusar a água, vai chamar a atenção de clientes que têm perfil de pessoas conscientes e isso é bom para o negócio dele, além de lucrar com a economia de água em si.

O GLOBO: Além do apoio do Sebrae, os pequenos precisam também de políticas públicas…

LUIZ BARRETO: Sim, e nós estamos sempre em busca disso. Os pequenos não têm condições, como as grandes empresas, de contratarem técnicos, de constituir um departamento de pesquisa, para atingir o eixo da inovação, que é fundamental na sustentabilidade. O Sebrae vai dar esse apoio a ele porque um de nossos temas é exatamente a inovação e tecnologia.

O GLOBO: O papel do Sebrae então, nessa questão da sustentabilidade, será instruir seus clientes sobre a importância do tema? LUIZ BARRETO: É também. Criamos até um centro de sustentabilidade no eixo do Pantanal, que é um grande espaço, para que todas as pequenas e microempresas possam dialogar sobre o tema. É todo produzido, foi erguido de maneira absolutamente sustentável, aliás, como vários outros prédios do Sebrae. Na verdade, nós já estamos atentos ao tema há muitos anos.

O GLOBO: Eu me lembro que vocês sempre fizeram parte das Conferências do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social… Desde quando a grande questão era trazer as empresas para o tema da responsabilidade social. Este tema já está totalmente incorporado? LUIZ BARRETO: Sim. Para você ter uma ideia, temos um anuário com pesquisa feita pelo Dieese que mede os salários nas micro e pequenas empresas. Há dez anos, o cenário era de muita informalidade e de baixos salários. Hoje melhorou muito: enquanto nas grandes empresas o salário do pessoal aumento 4% acima da inflação, nas micro aumentou 14% acima da inflação. Outra coisa foi a escolaridade. Há dez anos tínhamos a predominância do ensino fundamental e hoje temos a predominância do ensino secundário.

O GLOBO: As pequenas empresas ainda lidam com o risco de serem "engolidas" pelas grandes? Os supermercados, por exemplo, quando chegam em algum lugar costumam comprar todos os pequenos mercados que existem…

LUIZ BARRETO: Essa é uma visão nossa, a gente tende a confundir nosso espaço urbano com a realidade nacional. Hoje em dia tem espaço para todos, mas a tendência de concentração em alguns ramos é inexorável, embora aqui tenha uma legislação que, em alguma medida, protege os pequenos. Já que você citou supermercados, deixa eu lhe dar um dado que conheci ontem numa palestra: no setor de alimentos, o Brasil consome hoje mais de 80% de pequenos mercados, e apenas 14,5% dos grandes supermercados.

O GLOBO: Como o Sebrae vai estar fisicamente na Rio+20? LUIZ BARRETO: Vamos ter uma grande feira de produtos "verdes" em seis lugares. Vamos selecionar as práticas que têm tido sucesso há dez anos e fazer esta exposição.

Fonte:  O Globo | Amelia Gonzalez

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.