Pragas ameaçam motor do PIB

Pelo menos 10 novas doenças batem às portas do campo brasileiro, que, neste ano, garantirá um terço do crescimento do país. Demora na liberação de defensivos assusta os produtores

O mesmo governo que comemora a força da agricultura por garantir crescimento de pelo menos um terço do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil pode comprometer o desempenho do campo no próximo ano, se não agilizar a liberação dos registros de defensivos agrícolas no país. Pelo menos 10 pragas ameaçam as lavouras brasileiras e somente a lagarta helicoverpa armigera provocou prejuízos de US$ 4 bilhões na safra 2012/2013. Já a ferrugem asiática levou a perdas de US$ 25 bilhões nos últimos 10 anos.
Os produtores estão em estado de alerta. Apesar de a helicoverpa ter devastado as lavouras de Soja e algodão na Bahia e em Mato Grosso, não há no país registro de um defensivo capaz de combatê-la. Eles afirmam que, na safra 2013/2014, a Soja deve voltar a ser o principal produto da pauta de exportações do Brasil. Pelas contas da Agência de Comércio Exterior do Brasil (AEB), os negócios com o grão chegarão a US$ 31,5 bilhões neste ano. Mas, com as novas pragas, o avanço das plantações está comprometido. O “pulgão da Soja”, por exemplo, já migrou da China para os Estados Unidos e é uma ameaça com poder de reduzir em até 50% a Produção naquele país.
Para que um defensivo agrícola tenha o registro aprovado no país, é preciso que ele seja analisado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, pelo Instituto Brasileiro do Meio ambiente (Ibama) e pelo Ministério da Agricultura e Pecuária. O problema, alegam agricultores e empresários, é que a liberação das licenças demora mais que em outros países. Estimativas apontam que, enquanto nos Estados Unidos o processo leva até dois anos, no Brasil, pode chegar até a sete anos. Nesse período, o estrago na lavoura poderá ser devastador.
Barreiras
Na opinião do diretor executivo da Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef), Eduardo Daher, a morosidade nos registros para que novos produtos sejam usados nas lavouras brasileiras é resultado de um marco regulatório ineficiente. Ele explica que as barreiras fitossanitárias do Brasil não são eficientes e grandes eventos, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas, podem implicar na chegada de novas pragas. “A burocracia é mais perversa que a lagarta. Temos o conhecimento de que pessoas de outros países vêm para o Brasil com grãos, sementes, fungos e bactérias nas vestes, que são uma ameaça”, comenta.
Daher ressalta que, para evitar tais problemas, é necessário que os agricultores façam a rotação de culturas e de tipo de sementes e respeitem o vazio sanitário. Para ele, o manejo integrado, que consiste em mapear quais são as pragas que atacam a lavoura e aplicar os defensivos somente naqueles locais, aliado à alternância dos produtos, ajuda a combater infestações. “É deprimente dizer que, em 2010, foram aprovadas oito moléculas; em 2011, três; em 2012, uma; e, neste ano, uma. Nossa lavoura está ameaçada”, avisa.
Atenta à pujança e às oportunidades de Agronegócio, a Syngenta lançou um projeto agressivo com o qual espera aumentar 20% a produtividade de Soja, milho, cana de açúcar e café sem usar mais terra, água ou insumos. A empresa também pretende recuperar 50 mil hectares de pastagens degradadas, capacitar 200 mil pequenos agricultores para que a produtividade deles aumente em 50% entre outras metas.
Conforme o diretor global de novos negócios da Syngenta, Robert Berendes, o Brasil deverá ultrapassar os Estados Unidos em até dois anos e se tornar o maior mercado para a companhia. Ele destaca que o Agronegócio brasileiro cresce mais que em qualquer lugar do mundo. Por isso, a ampliação dos investimentos no país. “O grande desafio é acelerar o processo regulatório e de liberação de defensivos no Brasil. Temos uma tecnologia para combater a ferrugem que está na fila de espera há tempos”, diz.
O presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Maurício Antônio Lopes, avalia que o aumento da circulação de mercadorias com origem no campo e o crescimento da população mundial exigem maiores esforços para a segurança biológica. No entender dele, com a elevação das temperaturas e as mudanças climáticas no globo, o cinturão tropical será a região mais afetada por pragas e doenças.
Sendo assim, destaca Lopes, o Brasil precisa dar mais atenção à defesa à agropecuária, aprimorar as políticas públicas sobre o tema, ampliar o uso de tecnologias para antecipar riscos, além de fazer tudo isso de maneira planejada. “Teremos que dar mais atenção a esses fatos, que devem atingir todas as nações”, assinala.
Morosidade
O coordenador-geral de Avaliação e Controle de Substâncias Químicas do Ibama, Márcio Rodrigues Freitas, admite que alguns gargalos impedem que as avaliações de defensivo sejam feitas de maneira mais célere. Ele conta que a demanda por pareceres cresceu 75% nos últimos anos, enquanto as equipes técnicas permaneceram as mesmas ou diminuíram. “De fato, isso acarreta atrasos indesejáveis nos processos de registro”, justifica.
Freitas explica que, no Ibama, são feitos testes que avaliam o efeito tóxico do defensivo ao Meio ambiente e aos organismos vivos que não são alvos do produto. “Avaliamos se, eventualmente, o ataque a uma praga não agride peixes e abelhas, por exemplo”, explica, garantindo que os protocolos usados no Brasil não são diferentes dos aplicados em outros países.
O coordenador-geral de Agrotóxicos e Afins do Ministério da Agricultura, Luís Rangel, admite que o prazo de liberação das licenças ultrapassa o de países como os EUA. Na avaliação dele, a legislação brasileira é boa e há responsabilidade na emissão dos documentos. Entretanto, ressalta que falta infraestrutura e mão de obra para que os registros sejam expedidos. “Apesar de termos um Agronegócio dinâmico, não temos um sistema informatizado. Tudo é feito com papéis”, lamenta.
Por meio de nota, a Anvisa afirma que o registro dos agrotóxicos no país é feito pela Agricultura a partir do posicionamento do Ibama e dela. A reguladora acrescenta que seu trabalho consiste em analisar as substâncias de acordo com as prioridades apontadas pelo ministério, a fim de que os produtos necessários ao desenvolvimento agrícola cheguem com mais agilidade ao mercado.

Fonte: CORREIO BRAZILIENSE | ANTONIO TEMÓTEO