Por que o Brasil é indispensável

ANDREA ILLY | Na mistura da torrefadora italiana, mais de 50% do café é nosso

A PAOLO MANZO

NA ITÁLIA, Illy é sinônimo de qualidade do café. Ao chegar ao Brasil em 1933, a empresa italiana Illy constatou a dificuldade que produtores brasileiros encontravam então para obter um grão de qualidade. Cuidou desde logo em investir nos cafeicultores, na transferência de know-how e no comércio justo, oferecendo uma remuneração acima da média do mercado. Em 1991, a empresa criou o Prêmio Ernesto Illy de Qualidade do Café, que já distribuiu quase 5 milhões de reais entre os melhores cafeicultores do Brasil.

Sediada em Trieste, a noroeste da Bota, a torrefadora italiana está presente em mais de 140 países e seu espresso está disponível em mais de 100 mil restaurantes e bares em todo o mundo. No Brasil, a Illycaffè criou, em 2000, também a Universidade do Café, para transferir conhecimento a produtores, técnicos, baristas, empresários e consumidores. Resultado de parceria entre a empresa e a Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP), a universidade itinerante da Illy formou até hoje 8 mil brasileiros.

Andrea Illy, de 47 anos, foi convidado pela ONU a participar da Rio+20 após a obtenção da Det Norske Veritas Business Assurance (DNVBA), certificação sobre o "processo da cadeia produtiva responsável". É o único CEO de uma empresa de café no mundo que até hoje conquistou esse título.

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Com relações com o País desde 1933, a lilycaffè é a única no mundo que recebeu o certificado do "processo da cadeia produtiva responsável"

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CartaCapital: O que o senhor tem a dizer sobre a Rio+20?

Andrea Illy: Achei a conferência positiva, pois foram realizados alguns avanços e os conhecimentos sobre as questões de sustentabilidade social, ambiental e econômica foram consolidados. Aqui, nós tivemos de decidir se estamos no fim do mundo capitalista, baseado na exploração dos recursos, ou se queremos mudar para outro sistema que apoie os seus fundamentos sobre a conservação. Eu esperava que fosse o último fórum exortatório, já que o mundo deve começar a querer mais para as gerações futuras. Infelizmente, temo que o processo demore. Paciência. No entanto, falar sobre o meio ambiente hoje é bom para a conscientização.

CC: O convite da ONU para a Rio+20 deu-se especialmente pela certificação do DNVBA. O senhor não acha que há certificações demais?

Al: De maneira alguma, pelo menos esta não. Toda a nossa cadeia de produção, que opera em 15 países no mundo, foi acompanhada pela DNVBA, que a certificou, da planta até a xícara. No mundo do café, somos a única empresa com todo o processo garantido e certificado.

CC: Há outras razões para a sua presença no Brasil?

Al: Brincando, nomeei o Brasil como nosso segundo mercado doméstico. Compramos café brasileiro desde 1933, desde a criação do Illycaffè. Hoje, estamos aqui também porque assinamos o primeiro acordo com a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), instituição pública com a qual vamos trocar todo conhecimento adquirido até agora sobre o café.

CC: E qual é o objetivo desse acordo?

Al: Melhorar ainda mais o binômio inseparável:.qualidade e sustentabilidade. Pretendemos também criar novos projetos de cooperação entre Itália e Brasil.

CC: O secretário de Produção e Agroenergia do Ministério da Agricultura, José Geraldo Fonteles, revelou-me que, em poucos

anos, o Brasil pretende chegar a uma mistura 100% nacional, inexistente nos dias de hoje, por incrível que pareça. Qual é a sua opinião sobre o tema?

Al: A Illy tem uma mistura única composta de mais de 50% de café brasileiro. Nos últimos anos, têm sido feitos grandes avanços aqui, com um aumento tanto das áreas de produção quanto das áreas técnicas, constantemente renovadas. A união desses fatores de produção levou à produção dos aromáticos, que podem ser compatíveis com uma mistura de alta qualidade. Para que o País possa se orgulhar de ter uma mistura 100% brasileira, precisa de aromas mais florais, típicos dos cafés limpos, quando os frutos recém-colhidos são descascados e a polpa separada da semente para a limpeza e secagem. Quanto a isso, já começamos a trabalhar com a Universidade Federal de Viçosa, de Minas Gerais, para melhorar as técnicas e os produtos. Eu acho que é possível, mas ainda vai demorar um pouco.

CC: Para acelerar o processo, não acha que seria necessária a entrada do Brasil no World Coffee Research?

Al: Espero que o Brasil seja inserido em breve nesse programa de pesquisa e desenvolvimento agrícola, programa líder no mundo para o crescimento sustentável da cadeia de oferta de café do tipo arábica, e dos produtores. Nós o financiamos. Eu acredito que o Brasil, antes de ter a sua própria mistura, tem de trabalhar essas questões, e espero que possa fazê-lo conosco no World Coffee Research.

CC: No Brasil, 95% da soja é transgênica, assim como 90% dos GRÃOS. Em breve, teremos também um café geneticamente modificado?

Al: Como presidente da Associação Científica Internacional do Café, não conheço nenhum estudo sobre os organismos geneticamente modificados no café. Além disso, o ciclo de vida do café é de 30 anos. Pessoalmente, não vejo a necessidade da transgenia no grão do café, e não apenas por uma questão técnica, mas, sobretudo, porque o consumidor não quer OGM (organismo geneticamente modificado) na xícara, em nome de um receio compreensível.

CC: Quais são os verdadeiros problemas ambientais relacionados ao cultivo do café?

Al: A questão a ser abordada é a adaptação da cafeicultura às mudanças climáticas, que estão afetando algumas das regiões tradicionalmente produtoras de um excelente café, como a Colômbia e a América Central. Em relação a isso, o World Coffee Research vai trabalhar muito, também por meio da hibridização. O tema do aumento das áreas cultiváveis e do desmatamento não é um problema no Brasil, onde o café é cultivado em apenas 2 milhões de hectares de terra, o que representa uma migalha em comparação aos 385 milhões de hectares dedicados à agricultura.

CC: Na Rio+20, o senhor também apresentou um acordo de sua empresa assinado com a Itália. Conte-nos um pouco mais.

Al: É um acordo voluntário que visa analisar, reduzir e, em seguida, neutralizar o impacto sobre o clima no setor do café. Queremos estabelecer um sistema para gerenciar as emissões de carbono que possa ser um modelo para todas as indústrias que atuam nesse campo.

CC: Como aumentar a produtividade sem ceder na qualidade?

Al: Com novas técnicas, como a compatibilidade da colheita mecânica do café com a presença de árvores de sombra para proteção das plantas. Com essas novas medidas, a produção de café aumentou 50% nos últimos dez anos. E não com os OGM, que não entendo como poderiam melhorar a produtividade. Até 2020, espera-se que sejam produzidos 16 milhões de sacas, 16% a mais em relação à atual produção, sem a necessidade de cortar uma árvore na Amazônia.

CC: O senhor planeja abrir fábricas no Brasil?

Al: Atualmente, estamos seguindo toda a cadeia produtiva do café brasileiro que, em seguida, é repassado à Itália para ser devolvido ao Brasil como produto final. Porém, não descartamos a possibilidade de futuramente instalar uma empresa de torrefação aqui.

Fonte: CARTA CAPITAL

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