Por falta de jovens, produtores rurais temem futuro da agricultura familiar

Fonte: Rede Brasil Atual | Por: Virginia Toledo, Rede Brasil Atual

Ausência de políticas públicas eficientes, faz juventude do campo optar pela cidade, apesar de avanços conquistados por recentes programas federais

Publicado em 01/09/2011, 10:59

Última atualização às 10:59

Por falta de jovens, produtores rurais temem futuro da agricultura familiar

Adversidades da vida no campo podem levar jovens a buscar centros urbanos ecomprometer pequena produção agrícola (Foto: ©Ana Rojas/Folhapress)

São Paulo – A crescente saída de jovens nascidos no campo rumos às concentrações urbanas agricultores rurais, faz sofrer as famílias de pequenos agricultores, principalmente das regiões Sul e Sudeste, com a falta de perspectiva de passar adiante suas propriedades e a produção. No entanto, o IBGE registra uma recente diminuição dessa corrente migratória.

Centros urbanos ainda são atrativos para jovens que buscam alternativas econômicas e educativas diferentes daquelas encontradas no meio rural. Entretanto, para o pesquisador Valter Bianchini, ex-secretário de Agricultura do Paraná, que elaborou um estudo sobre projetos para o desenvolvimento da juventude rural, medidas como políticas de capacitação profissional, criação de linhas de crédito específicas e ampliação das atividades de lazer poderiam reverter as perspectivas e o quadro do êxodo rural dos jovens.

Em 2000, o Brasil contava com 6.134.639 de jovens no campo, o que representava 18% do total do número de pessoas residentes no meio rural com idade entre 15 e 24 anos. Porém, o último censo, o de 2010, registrou 5.493.845 de pessoas nas mesmas localidades e na mesma faixa etária, o equivalente a 16% da população total de jovens do país.

Nos últimos anos, o IBGE constatou diminuição do total de habitantes no meio rural, com taxa negativa de crescimento populacional detectada pelos últimos censos. No período de 1991 a 2000, a taxa foi negativa em 1,3% ao ano. Já no período 2000 a 2010 a taxa continuou negativa, mas com uma queda menor, de 0,65%.

Para o pesquisador do IBGE Fernando Albuquerque, apesar da leve queda do índice de redução da população rural entre os censos, o jovem representa parte importante desta baixa, com participação elevada no movimento migratório do meio rural para o urbano. Para ele, a ampliação do agronegócio está diretamente ligada ao fenômeno.

"A partir dos anos 80 o país começou uma intensa mecanização da agricultura, novas formas de plantio e de colheita. A produção agrícola cada vez menos necessita de mão de obra e é justamente a falta de oportunidades para os jovens que os faz sair das áreas rurais e migrar para áreas urbanas".

Com a elevação da oferta de emprego, principalmente no setor industrial e de serviços, além de encontrar condições mais acessíveis de estudos nas cidades, como escolas técnicas e faculdades, os centros urbanos tornam-se o rumo natural dos jovens nascidos no campo. Segundo Bianchini, o êxodo rural é preocupante e faz, inevitavelmente, aumentar a necessidade de se pensar políticas públicas para os pequenos municípios.

Para quem?

O presidente do sindicato rural de Bituruna, a 350 quilômetros de Curitiba, no Paraná, conta que uma das grandes preocupações dos agricultores da região, é a que envolve a sucessão familiar da propriedade e da produção. "O jovem urbano, chega na sexta-feira, pendura o boné dele na fábrica e volta só na segunda. E no meio rural teria que estar permanente (a trabalho) porque, dependendo da atividade que ele desenvolve, é de segunda a segunda", destaca o produtor.

O produtor de hortaliças orgânicas Antonio Gilberto, morador da zona rural de São Mateus do Sul, no Paraná, e pais de duas meninas e um menino, conta que a filha mais velha já decidiu trocar a roça pela cidade em busca de um emprego e de melhor educação. Antonio conta, com sentimento de alívio, que seu único filho homem já o ajuda na lida na roça. "O meu menino representa uma exceção, já que muitas das famílias que vivem aqui na comunidade não têm mais jovens para o trabalho na roça. Tem família com 8 ou 9 filhos e mais nenhum jovem na propriedade",comenta o produtor rural.

Políticas sociais

Para Valter Bianchini, ações governamentais poderiam ajudar a reverter o cenário de saída desses jovens da zona rural. Ele considera que se houvesse mais incentivos à permanência do jovem no campo, como linhas de crédito para aquisição de terras e equipamentos, o futuro dessa mocidade poderia traçar outros caminhos, que não levassem a tentar a sorte nos centros urbanos.

Outras medidas socioeducativas, opina, também fariam a escolha pelo trabalho na terra e na produção agrícola de pequeno porte prevalecesse entre a juventude rural. "A educação é um grande anseio do jovem morador das zonas rurais. A possibilidade de ficar por um tempo em sua propriedade, outra parte na escola, as chamadas ‘escolas de alternância’, pode representar uma medida importante para suprir esse anseio", destaca Bianchini.

O pesquisador sustenta, porém, que recentes programas do governo federal já registram avanços no sentido de reter essa população no campo. "O que se espera, de maneira geral, é que os movimentos populacionais para as cidades caiam, porque os benefícios (das políticas públicas) criam barreiras para o êxodo e estímulos para a permanência. Eu acredito em estabilização para o próximo censo no que se refere à diminuição da população rural."

O secretário da Agricultura Familiar do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), Laudemir Miller, afirma que a maior demanda do trabalhadore rural é a busca por uma atividade que lhe proporcione renda. "O jovem não vai ficar no meio rural se não tiver renda. Eles querem ter o próprio negócio", concluiu Miller. Entre os programas do governo voltados a esse público e a essa necessidade, ele cita o Programa Nacional de Agicultura Familiar (Pronaf), comvalores de até 12 mil reais para serem pagos em dez anos.

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