Ponte entre mundos distintos

Ana Paula Paiva/Valor

Harold Poelma, diretor da Cargill: apoio aos produtores para garantir a oferta de um produto sustentável no Brasil

De um lado, a Cargill, maior companhia de agronegócios do mundo, com uma estrutura global de peso de originação e processamento industrial de cacau. De outro, pequenos e médios produtores da amêndoa, com poucos hectares de cultivo e isolados no meio da floresta. Aproximar esses elos da cadeia nunca foi uma tarefa fácil, mas é isso que a multinacional assumiu como tarefa para os próximos anos no Brasil.

Com duas fábricas de processamento de cacau no Brasil, a múlti americana é a segunda maior moageira do país e adquire entre 30% e 35% da amêndoa nacional – atrás só da suíça Barry Callebaut. Considerada a produção esperada para esta safra no país, estima-se que a Cargill deverá comprar cerca de 60 mil toneladas neste ciclo.

Calcula-se que existam atualmente 65 mil cacauicultores em todo o país atualmente. Mas o tamanho da Cargill no Brasil é tal que a companhia ainda tem dificuldade de mensurar quantos destes produtores colaboram com seu fornecimento de matéria-prima.

O distanciamento entre os elos da cadeia gera problemas reais para todos os agentes: se por um lado a indústria tem dificuldades para garantir o fornecimento de uma quantidade determinada e de uma qualidade específica de cacau, o produtor também não tem parâmetro de conhecimento técnico para atender às demandas industriais.

Outro desafio decorrente desse distanciamento é a dificuldade da indústria em garantir que seus produtos vendidos ao mercado provenham de amêndoas cultivadas sob práticas mínimas de sustentabilidade, ambiental e social.

Para superar esses e outros desafios, a Cargill está iniciando uma aproximação com os produtores de cacau do Brasil, que já se refletiu em um investimento realizado em setembro na aquisição de um armazém de recebimento de amêndoa em Uruará, município paraense próximo à rodovia Transamazônica. Com essa nova estrutura, a companhia conta atualmente com cinco estações de recebimento, sendo três na Bahia e duas no Pará.

"Como queremos melhorar as condições dos produtores, com sustentabilidade e produtividade, temos que estar mais próximos deles", afirma Harold Poelma, diretor global de cacau e chocolate da Cargill.

Além de garantir estrutura física de recebimento, a companhia também pretende estreitar laços com os produtores, aumentando o volume adquirido diretamente de quem trabalha no campo e oferecendo-lhes instrumentos e conhecimentos para melhorar e ampliar a produção.

Hoje, 90% do cacau adquirido pela Cargill no Brasil provém de intermediadores. A intenção é reduzir essa fatia para algo em torno de 50% em até cinco anos, diz Laerte Moraes, diretor de negócios de Amidos, Adoçantes e Texturizantes da Cargill na América do Sul.

A companhia também pretende contratar mais técnicos para dar assistência aos produtores e conectá-los com práticas realizadas em outras partes do mundo, seja na identificação e combate de doenças do cacaueiro, seja para garantir uma produção de cacau com sabor de qualidade. O apoio também deve se dar pelo reforço do Cacau Fértil, o programa da Cargill de barter (financiamento de insumos em troca da produção) para a amêndoa.

Para Moraes, além de estabelecer uma relação de negócios com os produtores, é preciso construir uma "relação de confiança". E uma das consequências, inclusive, deve ser o reconhecimento da qualidade da produção através de certificação. Atualmente, uma parcela ínfima do cacau adquirido pela Cargill do Brasil é certificada. Globalmente, 25% do cacau adquirido pela companhia é produzido comprovadamente "de forma sustentável", e o objetivo é elevar essa parcela para 75%, diz Poelma.

Por Camila Souza Ramos | De São Paulo

Fonte : Valor

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