POLÍTICA – Habilitação de frigoríficos é sinal de maior aproximação com árabes, diz executivo

Para Ali Saifi, da Cdial Halal, habilitação de oito frigoríficos de carne bovina pela Arábia Saudita reforça expectativa de ampliação de negócios com países árabes

A habilitação de oito plantas frigoríficas de carne bovina do Brasil por parte da Arábia Saudita, anunciada nesta segunda-feira (11/11) pelo Ministério da Agricultura, confirma a importância de se buscar uma aproximação e um bom relacionamento com os países árabes. A avaliação é de Ali Saifi, diretor-executivo da Cdial Halal, empresa sediada em São Bernardo do Campo (SP), especializada na certificação de produtos conforme a religião islâmica.

“Oito frigoríficos é uma boa notícia, mas ainda há muito mais para conseguir. O mercado lá é muito grande”, afirma Saifi, em entrevista à Globo Rural. “Buscar mais significa levar uma agenda positiva para os dois lados. Com uma agenda positiva, vamos trazer mais assuntos de interesse do Brasil”, acrescenta. No comunicado oficial, o Ministério da Agricultura informa que as plantas habilitadas estão nos estados de São Paulo, Rondônia, Minas Gerais, Maranhão e Pará. A ministra Tereza Cristina avalia que a decisão da Arábia Saudita é fruto da recente viagem brasileira ao país.

“Faz parte de toda essa abertura que o Ministério vem fazendo juntamente com o governo federal. Boa notícia, resultado da viagem do presidente Jair Bolsonaro àquele país, já com resultados muito positivos”, afirmou a ministra, em uma mensagem de vídeo publicada na redes sociais.

"Para os países árabes, a questão da segurança alimentar é de suma importância. São países que precisam de proteína animal, do agronegócio, em geral. Então, com certeza, isso pode fomentar e pode crescer""

Ali Saifi, diretor-executivo da Cdial Halal

De janeiro a outubro deste ano, as vendas externas do agronegócio brasileiro para a Arábia Saudita foram de US$ 1,462 bilhão, 1,6% a mais que no mesmo período no ano passado, de acordo com o Ministério da Agricultura (Mapa). O país tem 1,8% de participação no total. A pauta de exportações para o país é liderada pelas carnes, especialmente a de frango, e complexos soja e sucroalcooleiro.

“Para os países árabes, a questão da segurança alimentar é de suma importância. São países que precisam de proteína animal, do agronegócio, em geral. Então, com certeza, isso pode fomentar e pode crescer”, diz Saifi, destacando que a demanda por esses países é liderada, principalmente, por carnes e grãos.

Fortalecendo relações

A passagem da comitiva liderada pelo presidente Jair Bolsonaro pela Arábia Saudita integrou um roteiro de viagem cumprido no final de outubro, iniciado pela Ásia, com visitas ao Japão e a à China. No Oriente Médio, além dos sauditas, a comitiva passou por Catar e Emirados Árabes, o que rendeu a assinatura de acordos de cooperação em diversas áreas.

A missão brasileira deixou a Arábia Saudita, última parada da viagem, com a promessa de investimentos de US$ 10 bilhões do fundo soberano do país em áreas de interesse do governo brasileiro. No setor privado, a BRF anunciou que vai investir US$ 120 milhões em uma nova planta na Arábia Saudita. A empresa também tem uma planta industrial em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes e opera no mercado árabe com uma marca voltada para produtos halal, criada em 2017.

Não houve, no entanto, pelo menos até o momento, sinalização da reabertura de plantas frigoríficas para exportar frango ao mercado saudita, o que ainda é esperado pela indústria do setor. Em janeiro, o país anunciou um embargo, reduzindo de 30 para 25 o número de unidade brasileiras que, efetivamente, embarcam o produto para o país. Até então, havia 58 habilitações no total.

“Há a possibilidade de reabilitação de plantas frigoríficas desabilitadas. O Brasil tem uma porta interessantíssima para negociar a reabilitação e acredito que, com um pouco mais de trabalho, até em habilitar mais plantas e abrir novos negócios nesses países”, analisa Saifi, reforçando seu otimismo.

Para Ali Saifi, a missão fortaleceu as relações e trouxe a expectativa de aumento do comércio do Brasil com países árabes, o que tende a refletir no agronegócio. Na visão dele, brasileiros e árabes trabalharam de forma clara seus objetivos em relação ao parceiro. Da parte do Brasil, houve um reconhecimento da importância do mundo árabe. E “muitas coisas foram desmistificadas” a respeito da região.

“É possível ampliar os negócios. Nas não é só isso. Temos grandes negócios com os países árabes e temos que manter. O Brasil está propondo uma agenda positiva, buscando também os interesses dos países árabes, oferecendo a eles onde investir em lugares produtivos”, afirma.

Cenário bem diferente de meses atrás, quando o futuro da relação do Brasil com o mundo árabe chegou a ser questionado, em meio à intenção do governo de transferir a embaixada em Israel de Tel Aviv para Jerusalém, o que não foi feito. A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, reconheceu por diversas vezes que havia uma preocupação, especialmente para a indústria de proteína animal.

“O Brasil tem que estar bem com todo o mundo. A aproximação com Israel ão atrapalha a relação com os países árabes, sempre lembrando os limites e mantendo o respeito entre as partes. Os países árabes são amigos, clientes importantes e, daqui em diante, investidores de suma importância”, pondera Saifi.

Acreditação

Para a própria Cdial Halal, o fortalecimento das relações entre o Brasil e os países árabes veio em um momento importante. A certificadora obteve, recentemente, a renovação de sua habilitação para atestar a procedência halal de produtos destinados aos países da região do Golfo Pérsico.

Concedida pelo Centro de Acreditação do Golfo (GAC, na sigla em inglês), a autorização vale por quatro anos. Permite que a empresa certifique produtos destinados a mercados, como Arábia Saudita, Kuwait, Irã, Emirados Árabes, Catar, Iraque e Bahrein.

“Não apenas mantém nossos negócios com as empresas que já trabalham conosco como possibilita o crescimento de participação nesses mercados. Tendo boas relações com os países árabes, a expectativa para nós é boa e para o Brasil também”, diz o diretor-executivo da empresa.

RAPHAEL SALOMÃO

Fonte : Globo Rural

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