POLÍTICA – Bancada Ruralista tem peso para definir eleições na Câmara e Senado

Especialistas dizem que candidatos aos postos de Maia e Alcolumbre precisam entender diferentes perfis de ruralistas para criar diálogo e obter votos

politica-reuniao-fpa-moro (Foto: Divulgação/FPA)

Reunião da FPA com o então ministro da Justiça, Sérgio Moro, antes da pandemia de coronavírus. Votos dos deputados e senadores ligados ao agro são decisivos na pauta e nas eleições do Congresso (Foto: Divulgação/FPA)

Temática e suprapartidária, a Bancada Ruralista deve ser estratégica para quem pretende se eleger à presidência da Câmara e do Senado. De acordo com a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), são 245 deputados e 39 senadores, o que representa quase metade da Câmara, já que a Casa comporta por 513 parlamentares e no mínimo 257 votos são necessários para eleição.

De acordo com Marco Antonio Teixeira, cientista político da Fundação Getúlio Vargas (FGV), isso representa quase metade da Câmara. Enquanto em 2011, o número era de 120 e 13, respectivamente, em 10 anos a “bancada ruralista quase dobrou de tamanho”. Ele pondera que não necessariamente o candidato definido pela Bancada será o vencedor, mas não há como “nenhum dos candidatos ser eleito sem conversar com a bancada”.

“É uma bancada forte, sobretudo no governo Bolsonaro, desde a indicação da ministra Tereza Cristina até avanços na pauta dos agrotóxicos. Então, é um grupo de interesse que tem peso no país desde a redemocratização. Dessa forma, nenhuma negociação de pauta importante tem como ignorá-la”, diz.

Olympio Barbanti, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC), pontua que “ninguém sabe qual o tamanho preciso da Bancada Ruralista, pois a Frente Parlamentar da Agropecuária diz que tem 257 deputados, mas a questão é se essa força votaria a favor de um único candidato”. De qualquer forma, para ele, a tendência é apoiar o  governo do presidente Jair Bolsonaro, por fazer parte do grupo chamado BBB – boi, bíblia e bala (referência a parlamentares ligados ao agro, igrejas e temas como armas).

“Desses proprietários rurais que são parlamentares, grande parte é apoiador do Bolsonaro. Partidos como MDB, PSD, PP, PL, Democratas estão mais alinhados a Bolsonaro. MDB ganhou muitas prefeituras em municípios rurais, PP e PSD também estão espalhados no interior do Brasil e vão ser cobrados pelos ruralistas. Tudo indica que isso vai para cima da eleição da Câmara”, aponta Barbanti.

Candidatos na mira

É o que acontece na recém-anunciada candidatura do parlamentar Arthur Lira (PP-AL), líder do Centrão na Câmara dos Deputados, que teve apoio de 18 dos 30 parlamentares presentes em reunião nesta quarta-feira (9/12). Na biografia de Lira, disponível no site da Câmara, ele se autodeclara agropecuarista, além de empresário e advogado. Lira é integrante da Frente Parlamentar Agropecuária (FPA).

Questionado sobre preferências para as presidências da Câmara e do Senado, o deputado federal Sérgio Souza (MDB-PR), próximo presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária no biênio 21-22, não mencionou apoio direto a Lira. Disse que todos os nomes que circulam como possíveis candidatos pertencem a legendas representadas na Bancada Ruralista, o que pode aproximar as relações.

“Temos algumas pautas tratadas no Congresso e claro que vamos prestar mais atenção aos candidatos que tenham mais afeição às pautas”, diz ele.

Eduardo Viveiros, cientista político e pesquisador da Pontifícia Universidade Católica (PUC), aponta que a regra do jogo político é que nenhum dos três poderes – Executivo, Legislativo e Judiciário – avance mais que o outro. “O papel da Bancada Ruralista no Brasil hoje é buscar o equilíbrio, aliança com setores que vão se contrapor ao radicalismo do Executivo”, comenta.

Facetas ruralistas

Se, por um lado, é de interesse da Frente Parlamentar Agropecuária eleger um candidato com afinidade às suas pautas, por outro, também é propício que os candidatos estabeleçam diálogos com os ruralistas. Não é uma tarefa tão simples. De acordo com Olympio Barbanti, atualmente, o grupo está dividido em quatro frentes: global, médio, energia e boi, com características e prioridades diferentes.

A primeira é composta por grandes exportadores, que tem acesso ao mercado agropecuária internacional, representativo de produtores rurais como o ex-senador Blairo Maggi. A segunda é mais ligada aos produtores de médio porte, de diversas cadeias produtivas no interior do Brasil, representada, por exemplo, pela senadora Kátia Abreu (PDT-TO).

Em seguida, Barbanti aponta o grupo simpatizante da Coalizão Brasil, Clima, Floresta e Agricultura, com forte agenda de descarbonização, bioeconomia, integração lavoura-pecuária e floresta e alinhamento com a agenda do novo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden.

Por último, está a parcela representada pela atual ministra Tereza Cristina, que o professor da UFABC define como "o pessoal que vai ser o mais influente dentro da Bancada Ruralista e deve ser o que vai comandar o apoio para a eleição do Congresso Nacional". Ainda assim, Barbanti ressalta que as demais forças da Bancada Ruralista manifestaram descontentamento com a política agroambiental e devem ser ouvidas devido à reputação negativa que o agro vem somando.

“Para ser eleito, é preciso ser eleito com a ‘pata do boi’, mas para entender melhor o jogo de forças dentro da bancada do agro, principalmente ligado ao grande capital industrial e atrair isso para a Amazônia, é preciso estar ciente dessas divisões internas e dialogar com elas”, diz.

Marco Antonio Teixeira corrobora ao dizer que não se pode “olhar o agro como um grupo coeso. Há grupos que têm um diálogo muito forte com a pauta ambiental, tem alianças possíveis com o meio ambiente. Também tem os interesses de pequenos produtores. Não podemos achar que todo mundo é igual”, reforça.

MARIANA GRILLI

Fonte : Globo Rural

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