Polêmico secretário argentino de Comércio assume negociações com o Brasil

Moreno é autor intelectual da política protecionista que vem sendo adotada pelos argentinos

BUENOS AIRES — Após anos de controlar as relações comerciais da Argentina nas sombras, o secretário de Comércio Exterior da Casa Rosada, o polêmico Guillermo Moreno, assumiu formalmente o comando das negociações com o Brasil num encontro com o secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Alessandro Teixeira. Em meio a uma série de atritos provocados pelas barreiras argentinas e a consequente retaliação do Brasil, Moreno e Teixeira tentaram melhor o clima no “casamento”, como definiu o secretário brasileiro o relacionamento entre ambos países, e se comprometeram a “fazer o dever de casa para destravar o comércio”.

— Em todas as relações existem conflitos e nossa relação com a Argentina é como um casamento — brincou Teixeira.

Segundo ele, Moreno, autor intelectual da política protecionista que vem sendo adotada pelos argentinos e que já levou um grupo de 40 países a denunciarem a Argentina na Organização Mundial de Comércio (OMC), “mostrou vontade de trabalhar” para que o comércio entre os dois principais sócios do Mercosul seja agilizado.

— Temos muito interesse no mercado argentino. No ano passado, dos US$ 7 bilhões em investimentos estrangeiros diretos recebidos pelo país, entre 35% e 40% foram capitais brasileiros — enfatizou o secretário brasileiro.

Longe de mostrar-se preocupado pela fama de brigão de seu colega argentino, Teixeira assegurou que Moreno (que já levou luvas de boxe a encontros com empresários locais) “é um bom negociador”.

— Queremos voltar a ter reuniões periódicas para monitorar o comércio — comentou o funcionário brasileiro, que semana que vem deve retornar à capital argentina.

Ambos governos decidiram analisar a lista de produtos prejudicados pela aplicação das chamadas Licenças na Automáticas (LNA) e buscar maneiras de acelerar o fluxo comercial entre os dois países. De acordo com as normas da OMC, os governos podem demorar até 60 dias em autorizar a entrada de importações com LNA. No entanto, em muitos casos, os produtos brasileiros demoram muito mais tempo em obter sinal verde para ingressar no mercado argentino. Um dos casos mais críticos é o dos calçados. De acordo com a Associação Brasileira de Calçados, cerca de 1,4 milhão de pares estão parados na fronteira com a Argentina à espera de autorização das autoridades locais (leia-se Moreno). Deste total, 200 mil completaram, este mês, um ano de espera.

— Esperamos que o compromisso assumido (por Moreno) seja cumprido — declarou, otimista, o negociador brasileiro.

Pela primeira vez, Moreno, que também está à frente do Indec (o IBGE local, acusado de maquiar as estatísticas oficiais do país) e da campanha do governo Kirchner contra meios de comunicação privados, principalmente o grupo Clarín, foi o principal interlocutor do Executivo argentino num encontro com autoridades brasileiras. Até agora, as negociações estavam em mãos da ministra da Indústria, Débora Giorgi. Nos últimos meses, Moreno ampliou seus espaços de poder no gabinete argentino e hoje está acima de Giorgi e do ministro da Economia, Hernán Lorenzino.

O comércio entre os dois países não está passando pelo melhor momento – em maio passado as vendas do Brasil recuaram quase 16%, frente ao mesmo mês do ano anterior – e, segundo ambos negociadores, isto é consequência da desaceleração de ambas economias.

— Acreditamos que a situação vai melhorar na segunda metade do ano e os exportadores brasileiros vão sentir uma diferença favorável — insistiu Teixeira.

O secretário mostrou-se satisfeito pela decisão da Argentina de elevar para 14% a alíquota de importação de bens de capital de fora do Mercosul, decisão anunciada esta semana pela presidente Cristina Kirchner.

O Brasil é um grande produtor de bens de capital e vai nos beneficiar — disse Teixeira.

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Notícia publicada em 8/06/12 – 19h12 Atualizada em 8/06/12 – 20h11 Impressa em 08/11/13 – 11h11

Fonte: O Globo Janaína Figueiredo*  *Correspondente