Plataforma estimula engajamento e pode criar boas oportunidades

A adoção de melhores práticas e certificações – como o Better Sugarcane Initiative (Bonsucro) – atestado global lançado em julho de 2011 para avaliar a sustentabilidade dos produtos fabricados a partir da cana, e que atualmente está entre os modelos mais usados no Brasil -, muitas vezes ainda é encarada como perda, por mais avanços que tal investimento possa trazer aos negócios. "É preciso dar mais confiança às empresas e demonstrar, na prática, o que elas ganham ao adotar uma conduta de preservação", afirma o gerente de ciências da ONG The Nature Conservancy, Leandro Baumgarten.

Foi nessa pegada que surgiu a Parceria Empresarial pelos Serviços Ecossistêmicos (Pese), uma iniciativa conjunta do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), o World Resources Institute (WRI), o United States Agency for International Development (USAID) e a Fundação Getúlio Vargas (FGV-EAESP).

Trata-se de uma plataforma criada exclusivamente para as companhias brasileiras encontrarem caminhos para gerenciar riscos e oportunidades decorrentes da dependência e do impacto de suas atividades sobre os ecossistemas. "A ideia é ampliar as oportunidades de negócios e, além disso, mensurar impacto e dependência dos serviços ecossistêmicos", diz a coordenadora da Câmara Temática de Biodiversidade e Biotecnologia do CEBDS, Fernanda Gimenes.

Inicialmente, 16 profissionais de oito empresas – Anglo American, Danone, Grupo André Maggi, Natura, Pepsico, Vale, Votorantim, Walmart – participam das oficinas de capacitação do Pese. A meta é estimular as 78 empresas que compõem o Conselho para que todas se engajem nessa empreitada. "Nessa primeira etapa o caráter foi mais qualitativo", afirma ela.

As oficinas fortalecem a capacidade de seus membros em avaliar e gerir os serviços ecossistêmicos e apresentam os avanços das empresas no desenvolvimento de várias ferramentas capazes de ajudá-las a medir impacto e dependência de recursos como água doce, madeira, regulação do clima, alimento, medicamentos naturais e outros. "Os resultados saem em setembro e o programa continua. Seguimos agora para uma etapa quantitativa."

Fernanda observa que na realidade as empresas já desenvolvem uma série de atividades diretamente relacionadas a serviços ecossistêmicos, muitas vezes sem se dar conta disso. São exemplos os planos de recuperação de áreas degradadas, os inventários de gases do efeito estufa e diversos projetos voltados à quantidade e/ou qualidade de recursos hídricos. "Mas com as ferramentas em mãos é possível aplicar essas informações no cotidiano e sair da caixa da sustentabilidade", afirma.

Na avaliação da gerente de sustentabilidade, saúde e segurança da Pepsico South America, Caribbean and Central America Foods, Andreza Araujo, a participação tem sido válida. O estudo da cadeia produtiva de Peruaníssimas, as batatas nativas do Peru, por meio da Pese, resultou num estreitamento de laços com a comunidade local. "A aceitação e o orgulho resultaram no desejo da divulgação natural das qualidades do produto", conta. "Com a finalização deste piloto, pretendemos analisar a viabilidade para a ampliação do projeto rumo a outras cadeias em outros países."

A escolha do país se deu em função da diversidade biológica local de espécies e de ecossistemas. O Peru está entre os dez países mega diversos, com altíssima diversidade genética de batata, posicionada entre os cultivos mais importantes para a alimentação humana. "Essa aliança com a Pese contribui como suporte ao desenvolvimento de estratégias dos negócios da companhia para a gestão dos serviços ecossistêmicos."

Outra iniciativa que vem ganhando corpo dentro da Pese é a Tendências em Serviços Ecossistêmicos (TeSE), criada pela Fundação Getúlio Vargas-EAESP em parceria com a Conservação Internacional (CI-Brasil) e a TNC. A proposta é apoiar as empresas no desafio de mensurar a sustentabilidade. Ou seja, saber como valorar o capital ambiental e realizar sua gestão quantitativamente.

O professor Renato Soares Armelin, coordenador do Programa de Sustentabilidade Global do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas-EAESP, explica que o primeiro passo já foi dado pela Pese, que é compreender como os serviços ecossistêmicos estão relacionados às operações da empresa. "Agora novos fatores de análise serão incorporados e as decisões poderão ser tomadas com base em fatos", diz. "O gestor poderá decidir se realiza o lucro agora ou lá na frente diante das externalidades do meio ambiente."

O custo-benefício de se preservar poderá, então, ser comprovado estatisticamente. Na busca por essa conta, duas são as frentes de discussão do grupo composto pelas empresas Abril, AES Brasil, Anglo American, Camargo Corrêa, Grupo Andre Maggi, Ibope Ambiental, Natura e Suzano: uma é a mensuração e valoração dos serviços ecossistêmicos em si, de modo a incluí-los nos balanços financeiros posteriormente e; a gestão responsável dos recursos hídricos. "É só uma questão de tempo para que essa conta entre inclusive no cálculo do Produto Interno Bruto", adianta Armelin.

© 2000 – 2012. Todos os direitos reservados ao Valor Econômico S.A. . Verifique nossos Termos de Uso em http://www.valor.com.br/termos-de-uso. Este material não pode ser publicado, reescrito, redistribuído ou transmitido por broadcast sem autorização do Valor Econômico.
Leia mais em:

http://www.valor.com.br/brasil/3159280/plataforma-estimula-engajamento-e-pode-criar-boas-oportunidades#ixzz2W6Fc14q2

Fonte: Valor | Por De São Paulo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *