PLANTIO DE SOJA | Fenômeno inconfiável

Pesquisa indica que maiores quebras na safra gaúcha não ocorreram em ano de La Niña, mas em anos neutros ou de El Niño com fraca intensidade Redução no valor do grão pode resultar em lucro R$ 2 bilhões menor para os produtores gaúchos na temporada 2014/2015 em relação à colheita anterior

Fator que costuma injetar ânimo nos agricultores por ser usualmente associado ao prenúncio de bom rendimento para as culturas de soja e milho, o fenômeno El Niño pode ter seu retorno confirmado ainda neste ano mas não é garantia de colheita farta. Nem a ocorrência do La Niña, normalmente temida no campo pela menor ocorrência de chuva no Estado, é sinal de quebra na lavoura. A conclusão é de um estudo do agrônomo Ronaldo Matzenauer, que deverá ser publicado no próximo ano pela Fundação Estadual de Pesquisa Agropecuária (Fepagro).
O trabalho vasculhou o resultado de 38 safras de 1974 a 2012, cruzado com as diferentes condições climáticas de cada período. Nas 12 safras sob influência do El Niño, aponta a pesquisa, a produtividade da soja foi exatamente igual à dos 13 ciclos com o La Niña. No milho, de forma ainda mais surpreendente, o El Niño trouxe rendimento ligeiramente inferior na comparação com o fenômeno contrário. O grande risco para lavouras dos dois grãos, indica o estudo, está em anos neutros.
– As maiores quebras não ocorreram em anos de La Niña, mas em neutros ou de El Niño fraco. Em 2004 e 2005, por exemplo, tivemos El Niño fraco – cita Matzenauer, ressaltando que a perspectiva para os próximos meses, caso se confirme, é de fenômeno de fraco a moderado.
Embora historicamente relacionado a precipitações acima da média, o El Niño costuma provocar mais chuva na primavera. Os meses mais críticos para a lavoura, acrescenta o especialista, são principalmente janeiro, fevereiro e, em alguns casos, até março. Os anos neutros mostraram maiores dificuldades hídricas, principalmente na metade norte do Rio Grande do Sul, onde se concentram as lavouras de soja e milho.
Para os próximos dois meses, pelo menos, o prognóstico indica chuva acima da média no Estado. O coordenador do 8º Distrito de Meteorologia, Solismar Prestes, explica que, no verão, episódios de El Niño fortes ou então o aquecimento das águas do Oceano Atlântico na costa da Região Sul podem contribuir para a ocorrência de chuva mais abundante.
– Por enquanto, o Oceano Atlântico está entre a temperatura média e um pouco acima do normal – avalia Prestes.
O cenário atual, conclui o meteorologista, indica por enquanto uma forte tendência de termos a temporada de verão sem estiagem.
A queda no preço da soja, somada ao aumento dos custos de produção, vai impor aos agricultores gaúchos, na safra 2014/2015, o menor ganho nos últimos três anos. Caso se confirmem as projeções da Federação das Cooperativas Agropecuárias (Fecoagro) sobre faturamento com a venda do grão e os valores gastos para formar as lavouras, o lucro dos sojicultores no Rio Grande do Sul será de cerca de R$ 3 bilhões. No ciclo anterior, com a cotação nas alturas, a estimativa de margem é de R$ 5 bilhões.
Com ganhos mais apertados em relação às duas safras anteriores, resta aos agricultores – além de torcer por condições climáticas favoráveis – gerenciar melhor os custos e fazer uma boa gestão de riscos, enfatiza o superintendente da Fecoagro, Tarcisio Minetto. Entre os instrumentos à disposição, os produtores podem ao menos travar os preços com a venda futura de parte da safra – e assim garantir que os custos serão cobertos. Ao mesmo tempo, é necessário fazer uso racional dos insumos para não gastar mais do que a terra necessita.
– Mas não se deve abrir mão de investir em tecnologia. Isso pode baixar a produtividade – ressalta Minetto.
COMÉRCIO SERÁ AFETADO
A retração nas cotações da soja, diz Luiz Fernando Roque, consultor da Safras & Mercado, se deve sobretudo à expectativa de aumento da produção, principalmente nos Estados Unidos. O preço médio do grão no Estado, apurado na semana passada pela Emater, é de R$ 52,97 a saca de 60 quilos, 20% abaixo de um ano atrás. A esperança para elevar a rentabilidade é a expectativa de que os preços comecem a reagir.
– Acreditamos que a cotação está batendo no fundo do poço. As supersafras americana e brasileira já estão precificadas e não têm como cair mais do que US$ 9 o bushel (equivalente a 27,2 quilos) – estima Roque.
A alta do dólar, diz o consultor, pode mais ajudar do que atrapalhar. Isso porque os insumos, em grande parte atrelados à moeda americana, foram comprados com certa antecedência, sem tanta influência do câmbio.
A projeção de rentabilidade menor também coloca em alerta comércio no interior do Rio Grande do Sul. O presidente da Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas do Estado (FCDL), Vitor Koch, ressalta que o desempenho do campo, que tem a soja como locomotiva, é fundamental para o setor. Tanto pela maior circulação de dinheiro quanto pela influência psicológica que causa no consumidor.
caio.cigana@zerohora.com.br

CAIO CIGANA

ENTENDA OS FENÔMENOS

EL NIÑO

– Caracterizado pelo aquecimento das águas superficiais no Oceano Pacífico na região do Equador. Tem poder de afetar o clima em diversas partes do globo. Na Região Sul do Brasil, costuma causar aumento de chuvas, principalmente na primavera, e elevação nas temperaturas.

LA NIÑA

– Tem características opostas ao El Niño, com o resfriamento das águas do Pacífico na mesma região. No sul do Brasil, é normalmente associado a secas.

SENSO COMUM CONTRARIADO

– O maior rendimento médio da soja no período pesquisado pelo agrônomo Ronaldo Matzenauer foi na safra 2010/2011, com produtividade de 2.875 quilos por hectare, sob influência do La Niña.

– O mesmo ano agrícola registrou o maior rendimento do milho, de 5.293 quilos por hectare.

– Na safra 2004/2005, quando o Estado sofreu uma das piores quebras de safra, havia El Niño de fraca intensidade.

MULTIMÍDIA

 

Fonte: Zero Hora

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