Planos da BRF frustram investidores

Leonardo Rodrigues/Divulgacao

Lorival Luz, vice-presidente executivo da BRF, está sendo preparado para suceder Parente no cargo de CEO global

O planejamento estratégico da BRF para os próximos cinco anos frustrou os investidores. Apresentado ontem pelo CEO global, Pedro Parente, o plano não conseguiu impulsionar as ações da dona das marcas Sadia e Perdigão mesmo em um dia de fortes altas na bolsa, puxadas pelo "efeito Bolsonaro". No pregão de ontem, os papéis da BRF tiveram ligeira queda de 0,09%, para R$ 22,47. O Ibovespa subiu 4,5%. Outras empresas de carnes listadas na B3 registraram altas expressivas.

A sinalização da BRF é que a reestruturação, tão aguardada, deverá demorar para dar resultados. Castigada pelos embargos decorrentes da Operação Trapaça, que investiga fraudes em testes de salmonela em lotes de carne de frango voltados à exportação, a companhia só começará a reverter a queda de suas margens em 2019, disse Parente. Pelos prognósticos, só em 2020 a BRF voltará a ter margens de lucro nos patamares históricos – mais de 10% -, o que desagradou analistas.

"Nossa estratégia vai ser executada em ondas", afirmou Parente na manhã de ontem, em evento realizado em São Paulo para apresentar o planejamento estratégico da BRF para o ciclo 2019-2023. Se tudo correr bem e a BRF recuperar a rentabilidade no prazo estipulado, fazer aquisições voltará à pauta. No radar de longo prazo, está a Arábia Saudita, onde a BRF ainda não conta com fábricas. Atualmente, a companhia é a maior exportadora de carne de frango para o mercado saudita. A empresa brasileira, que faturou mais de R$ 30 bilhões no ano passado, é a maior produtora global de alimentos halal, que seguem preceitos muçulmanos.

No mercado, os sinais dados pela empresa não convenceram. Ao Valor, um analista de um fundo de investimentos também fez críticas ao "timing" escolhido pela empresa para divulgar o plano. "O assunto dominante é a eleição", afirmou. "Nem o dia para fazer evento eles acertam. Escolheram o pior dia possível".

Aos analistas, Parente argumentou que a BRF precisa de estabilidade interna para se recuperar. Nos últimos anos, a empresa sofreu com divergências no conselho de administração e perdeu muitos executivos – inclusive no alto escalão. A estabilidade na gestão é fundamental para a BRF não só "recuperar o que já foi", mas "ir além", afirmou o executivo.

Nesse sentido, Parente colocou como um das suas principais missões como CEO da empresa a definição do time de executivos. A empresa renovou praticamente todo o grupo de vice-presidentes e, em novembro, receberá o reforço de Neil Peixoto como vice-presidente de qualidade. O executivo comandava a área de pesquisa e desenvolvimento e qualidade da área de alimentos da Mondelez na Europa.

Para evitar solavancos e guinadas bruscas na estratégia da BRF, Parente adiantou que Lorival Luz, vice-presidente executivo da empresa, está "sendo preparado" para sucedê-lo no cargo de CEO global. A mudança deverá ser feita em junho do próximo ano. Isso ocorrerá porque, pelas regras do Novo Mercado, os cargos de presidente do conselho de administração e presidente-executivo só podem ser acumulados por um ano. Eleito em abril para substituir Abilio Diniz e comandar o conselho da BRF, Parente se tornou CEO em 18 de junho deste ano, duas semanas após se demitir da Petrobras.

Em entrevista a jornalistas após a apresentação do planejamento estratégico, Parente fez questão de dizer que, como presidente do conselho da BRF, terá "papel ativo" nas decisões estratégicas. O executivo também afirmou que será um "chairman executivo". Em relação ao futuro sucessor, Parente destacou a harmonia que os dois têm. Nos bastidores da BRF, a dupla é conhecida como "LL&PP".

Enquanto preparam essa transição, Parente e Luz ainda lidam com um cenário adverso no curto prazo. Tanto é que, na entrevista, evitaram dizer se o índice de alavancagem (relação entre dívida líquida e Ebitda) já apresentará redução no resultado deste terceiro trimestre, que será divulgados em meados de novembro.

No front externo, os desafios permanecem. Se até agosto os principais executivos da empresa exibiam otimismo com a reabertura do mercado da Rússia à carne suína brasileira, agora essa esperança se esvaiu. Aos jornalistas, Parente reconheceu que as indicações de que Moscou retomaria as compras do produto brasileiro "esfriaram".

Diante desse cenário, a BRF já reduziu o ritmo de abates de suínos. O embargo da Rússia, em vigor desde o fim de 2017, foi bastante negativo para os exportadores brasileiros do produto. Os russos eram responsáveis por cerca de 50% do faturamento das exportações. Ainda em relação ao mercado externo, não há qualquer sinal de que a União Europeia retirará o embargo às plantas da BRF.

Do lado financeiro, a empresa reiterou ontem a meta de anunciar a venda dos ativos na Argentina, Europa e Tailândia até o fim do ano. Os recursos dessas operações, porém, só devem entrar no caixa da BRF entre janeiro e fevereiro de 2019, disse Lorival Luz. A venda dos ativos é a principal iniciativa do plano de emergência para levantar R$ 5 bilhões e reduzir o endividamento. Até o fim do ano, a BRF pretende reduzir o índice de alavancagem (relação entre dívida líquida e Ebitda ajustado) de 5,7 vezes para 4,35 vezes. No horizonte de cinco anos, o objetivo é que o índice fique entre 1,5 vez e 2 vezes.

Fonte: Valor | Por Luiz Henrique Mendes | De São Paulo