PLANO SAFRA 20212022 – R$ 251,2 bi para financiar o produtor, mas com juro maior

Com R$ 251,2 bilhões disponíveis para o financiamento do setor agrícola, o governo federal anunciou ontem o Plano Safra para o período 2021/2022. O volume de recursos é 6,3% superior aos R$ 236,3 bilhões do ciclo passado.

O volume dos juros controlados, de R$ 165 bilhões, equivale a 65% do total, percentual idêntico ao do ano passado e que tem origem em R$ 13 bilhões aportados pelo Tesouro Nacional. Trata-se da chamada subvenção. Na prática, é isto que subsidiará os juros e o spread bancário (diferença entre o custo de captação e empréstimo no sistema financeiro).

O pedido inicial da ministra da Agricultura, Tereza Cristina, girava em torno de R$ 15 bilhões. Como não houve evolução percentual nesses subsídios, o Plano Safra 2021/2022 interrompe um ciclo de redução dos juros.

Sendo assim, a agricultura familiar, por meio do Pronaf, terá R$ 39,3 bilhões, incremento de 19% sobre o total destinado na edição de 2019/2020. Mas, os juros, antes de 2,75% a 4% ao ano, foram elevados para 3% a 4,5% ao ano.

Já os médios produtores, via Pronamp, terão R$ 34 bilhões e juros entre 5,5% e 6,5%, também superiores aos 5% ao ano do ciclo passado. Os demais agricultores terão à disposição R$ 177,9 bilhões e taxas de 7,5% a 8,5% ao ano. Do total, R$ 177,8 bilhões serão para custeio e comercialização e R$ 73,4 bilhões para investimentos.

O anúncio do Plano Safra evidencia a transição para o mercado, ou seja, a busca por financiamentos alternativos no mercado, avalia o economista-chefe da Federação da Agricultura do Estado (Farsul), Antônio da Luz. Isso fica claro, diz, quando percebe-se que 64% dos R$ 251,2 bilhões, ou R$ 160 bilhões, é dinheiro livre de subsídio:

– É bom lembrar que o grosso dos recursos subsidiados vai para a agricultura familiar, os médios produtores e investimentos.

Para o especialista, a cada ano que passa, torna-se mais perceptível que a agricultura brasileira cresce em ritmo mais acelerado do que o sistema de crédito rural é capaz de acompanhar. A própria ministra chamou a atenção para o crescimento de mecanismos de financiamento do setor privado.

É o caso das Cédulas do Produto Rural (CPRs), que saltaram 211%, passando de R$ 17 bilhões, em 2018, para R$ 53 bilhões, em 2021. Da mesma forma os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) tiveram evolução de 50% em valores de negócios.

– São produtos que estão chegando à agricultura familiar, não são mais instrumentos exclusivos da agricultura empresarial. Tenho a convicção de que o investimento do agronegócio é o que dá mais retorno – disse Tereza Cristina.

Conforme a ministra, o Plano Safra, apesar do "inevitável" aumento nos juros, dá conta de suprir as necessidades do setor. Ela "desafiou" produtores a buscar uma colheita de 300 milhões de toneladas de grãos.

O anúncio veio em linha com as expectativas, mas a alta dos juros trouxe frustração, especialmente entre os pequenos produtores.

– Há aumento de custos, que serão 40% superiores aos do ano passado, em razão de óleo diesel, insumos e defensivos agrícolas. Por isso, a importância da manutenção dos juros, pois se trabalharmos com o mesmo valor, certamente, estaremos financiando área plantada menor do que no ciclo anterior – argumentou o presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Estado (Fetag), Carlos Joel da Silva.

Joel estimava ampliação de recurso para R$ 40 bilhões para o Pronaf, valor bastante próximo dos R$ 39 bilhões anunciados. Ele comentou que o empresário rural produz commodities e tem sido beneficiado pela alta dos preços.

– Pequenos produtores, hortifrutigranjeiros, produtores de leite ou criadores de frango, por exemplo, movimentam o mercado interno, mas, hoje, precisam de políticas públicas para competir. Os custos são em dólar, e o preço é pago em reais – resume.

Na avaliação de Da Luz, os juros não surpreendem, pois estão dentro de um contexto de curva ascendente da taxa Selic, ampliada para 4,25% na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) na semana passada. O especialista também destaca que o Plano Safra busca dar uma resposta aos questionamentos ambientais.

– São recursos para financiar ações diretas que surpreendem e parecem uma sinalização aos críticos internos e externos do governo. Isso mostra um compromisso não só de palavra, mas também financeiro com a agenda ambiental – pontua.

rafael.vigna@zerohora.com.br

RAFAEL VIGNA

Fonte : Zero Hora

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *