Petróleo ‘barato’ prejudica etanol celulósico

Jan Koninckx, diretor mundial de bicombustíveis da DuPont: "Estamos reformulando o setor de energia de transportes"
O biocombustível avançado produzido a partir de resíduos agrícolas – o "Santo Graal" da energia alternativa – não será competitivo enquanto os preços do petróleo não voltarem ao patamar de US$ 70 a US$ 80 o barril, avalia a multinacional americana de produtos químicos DuPont.

Esse reconhecimento por parte da companhia, que inaugurou na semana passada a maior usina de etanol celulósico do mundo, chama a atenção para o desafio das fabricantes de biocombustíveis "de segunda geração". Após tentarem por uma década implementar um complicado processo de produção, as empresas estão constatando que seus modelos de negócios estão ameaçados pela transição econômica do setor- e pela política dos EUA.

A nova usina da DuPont, localizadas no Estado americano de Iowa e que custou US$ 225 milhões, começará, após algum atraso, a fabricar etanol celulósico em 2016. O uso do biocombustível deverá resultar em 90% menos emissões de gases-estufa que a gasolina convencional. O etanol será comercializado na Califórnia, que determinou uma redução de 10% no teor de carbono nos combustíveis usados para fins de transporte até 2020, por meio da adição de bicombustíveis.

Jan Koninckx, o diretor mundial de bicombustíveis da DuPont, descreveu a inauguração da usina como "um dia histórico da tecnologia". "Estamos verdadeiramente reformulando o setor de energia de transportes… Esse é um benefício ambiental descomunal", acrescentou.

Mas o uso de resíduos agrícolas para a produção de bicombustível apresenta dificuldades. A DuPont transformará a celulose da palha de milho resultante da colheita em etanol. Entre as outras fontes de etanol celulósico estão o bagaço de cana e plantas especificamente voltadas para fins energéticos, como a gramínea "Panicum virgatum", conhecida em inglês como "switchgrass".

O uso de resíduos como matéria-prima, dessa maneira, contorna muitas das preocupações geradas pelos biocombustíveis de primeira geração, principalmente a de que a produção de alimentos estaria sendo sacrificada para a geração de aditivos para combustíveis. Mas o novo processo de produção do etanol celulósico precisa de enzimas avançadas para liberar os açúcares contidos na celulose, e os níveis de produção nos EUA estão muito baixos.

Apenas duas usinas empregam essa tecnologia atualmente: uma da espanhola Abengoa e outra controlada por uma joint-venture entre a fabricante de etanol Poet e a empresa holandesa Royal DSM.

Ambas inauguraram suas usinas formalmente há pouco mais de um ano, mas, de janeiro a setembro, foram produzidos nos EUA apenas 1,65 milhão de galões (6,25 milhões de litros) de etanol celulósico, segundo o Departamento de Proteção Ambiental do governo americano. Isso corresponde a 4% do volume que as usinas da Poet e da Abengoa teriam, em tese, capacidade de produzir nesse período.

A DuPont afirma ter obtido uma compreensão maior do processo de produção do etanol celulósico. Mas Koninckx reconheceu que o etanol celulósico não será competitivo com os combustíveis derivados do petróleo enquanto as cotações do barril não voltarem a superar US$ 70 – hoje estão em torno de US$ 50.

Nos EUA, a demanda por etanol é obrigatória, segundo determinação do Padrão de Combustíveis Renováveis, regulamentação que estipula um volume específico de biocombustíveis que tem de ser misturado a combustíveis para o transporte rodoviário ou para aviação e também no óleo de calefação.

Mas essa regulamentação tem sido alvo de ataques do setor petrolífero, de fabricantes de alimentos e de ambientalistas – e, nesse contexto, o Departamento de Proteção Ambiental iniciou uma nova investigação sobre as emissões do etanol. A produção de etanol tem atingido também o chamado "teto de mistura" de 10% no combustível para automóveis nos Estados Unidos.

Para Peder Holk Nielsen, principal executivo da Novozymes, a empresa dinamarquesa de enzimas que fornece seus produtos a concorrentes da DuPont, como a Beta Renewables, da Itália, o importante é custear a expansão do setor. "As usinas de segunda geração poderão ser 20, 30, 200 ou 2 mil", diz ele. "Mas isso não vai acontecer enquanto os investidores não entenderem que as usinas terão acesso ao mercado… não apenas hoje, mas em 2025", afirma.

Para infundir confiança, diz ele, Washington tem de conservar e prorrogar o Padrão de Combustíveis Renováveis. Mas muitos políticos republicanos e alguns democratas argumentam que ele deveria ser reduzido ou abandonado.

O analista de energia Robert Rapier diz que o problema do etanol celulósico é a dificuldade de processamento e de gestão logística dos altos volumes de rejeitos da usina. "Do ponto de vista técnico, ele funciona", diz. "Do ponto de vista econômico, trata-se de uma proposta difícil". Para Neilsen, da Novozymes, os benefícios ambientais justificam a continuidade do apoio. (Tradução de Rachel Warszawski)

Por Ed Crooks | Financial Times

Fonte : Valor

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