Pesquisadores da Embrapa indicam a utilização de cobertura morta para proteger o solo do cafezal na estiagem

Época da estiagem em Rondônia é de junho a setembro, quando falta de água e altas temperaturas afetam a produtividade cafeeira

Rogério Sebastião Corrêa da Costa, Júlio Cesar Freitas Santos e Francisco das Chagas Leônidas

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Foto: Wikimedia Commons

Cobertura morta do solo conserva a água para a lavoura e reduz a presença de plantas daninhas

Durante o período de estiagem em Rondônia, de junho a setembro, a falta de água e as altas temperaturas podem afetar a emissão de flores do cafeeiro e, consequentemente, a sua produtividade. Em Rondônia, a florada principal dos cafeeiros conilon e robusta ocorre entre o fim de julho e o início de agosto e, dependendo das principais condicionantes climáticas (chuvas e temperatura média mensal acumulada), pode ocorrer uma segunda e, ainda, uma terceira época de florescimento nos meses de agosto, setembro e outubro.
Uma forma de auxiliar na uniformização da florada e aumentar a produtividade do cafezal é manter as entrelinhas do cafezal protegidas com o uso de cobertura morta nesse período de estiagem, com uso de capins, palhadas, casca de café, roço das plantas daninhas e outros resíduos existentes na propriedade rural.
Além da cobertura morta do solo conservar a água para a lavoura e evitar altas temperaturas no terreno, ela enriquece o solo com matéria orgânica e alguns nutrientes e reduz a presença de plantas daninhas, influenciando diretamente na produção do cafezal.
Segundo trabalhos de pesquisa, desenvolvidos em Rondônia e Minas Gerais, a casca de café é uma excelente fornecedora de matéria orgânica, sendo uma das maiores fontes orgânicas de potássio e nitrogênio, além de melhorar a capacidade de retenção de umidade pelo solo; diminuir a temperatura nas camadas superficiais e melhorar o arejamento do solo; controlar a erosão e reduzir o crescimento de plantas daninhas.
Em ensaios conduzidos na Embrapa Rondônia, a aplicação de 70 ton/ha de casca de café em um cafezal recepado promoveu um aumento nos níveis foliares de fósforo, potássio, cálcio e magnésio e aumento da produtividade do cafeeiro em até 90% (20 para 38 sacas/ha), em relação à testemunha não recepada, e 38% (28 para 38 sacas/ha) em relação ao cafeeiro recepado e sem cobertura, além de controlar eficientemente as plantas daninhas.
Em outro ensaio conduzido na Universidade de Viçosa, também foi testada casca de café como cobertura de solo no cafezal e observou-se uma maior retenção da água no solo e uma condição mais favorável dele à manutenção do sistema radicular do café, principalmente após longo período de déficit hídrico, aumentando duas vezes a quantidade de raízes em comparação com o tratamento sem cobertura.
Outra forma de obter resíduos para cobertura do solo é o cultivo intercalar de leguminosas e/ou gramíneas nas ruas do cafezal, devendo as mesmas serem cortadas no final do período chuvoso para a formação da cobertura morta e proteção do solo no período seco. Além de servir como fonte de cobertura morta, as leguminosas beneficiam o solo e as plantas através da fixação de nitrogênio. Leguminosas como amendoim forrageiro (Arachis pintoi), desmódio (Desmodium ovalifolium), feijão de porco (Canavalia ensiformis) e mucuna (Stizolobium sp.) têm sido utilizadas com resultados satisfatórios nos cafezais em Rondônia.
Entre as gramíneas, o milheto (Pennisetum glaucum) é uma planta que se adapta bem em solo de baixa fertilidade e com déficit hídrico, tem alta capacidade de ciclagem de nutrientes, crescimento rápido e elevada produção de biomassa, além de apresentar resistência às principais pragas, reduzindo a população de nematóides como Meloidogyne incógnita e javanica, Pratylenchus brachyurus e Rotylenchulus reniformis. O milheto vem sendo usado com sucesso em cafezais do Espírito Santo e de Rondônia.
O capim braquiária é outra gramínea que pode ser usada no cafezal, através do cultivo e roço nas ruas do cafezal. A vantagem é a produção de grande quantidade de material vegetal. Além disso, o sistema radicular da braquiária é extremamente desenvolvido, o que ajuda na estruturação do solo, aumenta o teor de matéria orgânica e dificulta a erosão.
Alguns cuidados devem ser tomados no plantio intercalar com leguminosas ou gramíneas: manter o plantio intercalar a 1,0 m da linha do café, fazer o cultivo no período chuvoso e cortar as plantas no final do período chuvoso, dar preferência a plantas com porte baixo, de ciclo curto e que se adaptem a diferentes tipos de solo e manejos.
Outra prática importante é o manejo de plantas daninhas que, se bem manejadas, podem ser benéficas à lavoura por fazerem o sombreamento do solo, evitando a incidência direta dos raios solares, amenizando os efeitos da erosão na época das chuvas, aumentando o teor de matéria orgânica pela decomposição de raízes e partes aéreas. O controle deve ser feito antes do início do florescimento ou quando as invasoras atingem altura média de 15 a 20 cm, sempre mantendo a área das invasoras a 1,0 m da linha do café. Geralmente, esta prática é realizada através de uso da roçadeira que permite manter as plantas daninhas vegetando com porte baixo, evitando maior disseminação e contribuindo para a deposição de resíduos no solo.
Em um ensaio de controle de plantas daninhas em um cafezal, localizado em um solo de média a alta fertilidade na região de Ouro Preto do Oeste (RO), observou-se que o roço – apesar de haver maior ocorrência de plantas invasoras nas ruas do cafezal – não apresentou diferenças em relação aos tratamentos com casca de café, leguminosas e capinas química e manual, na avaliação da produtividade. Como as plantas daninhas são muito agressivas, deve-se tomar o máximo de cuidado com o manejo das mesmas em solos de baixa fertilidade, visando evitar a competição com o cafeeiro.

EMBRAPA

Fonte: Ruralbr

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