Pesquisa usa medicamento humano contra cancro

A biotecnologia não é a única alternativa para combater doenças que afetam os pomares nacionais. A solução pode estar bem debaixo do nosso nariz.

Claudio Belli/Valor / Claudio Belli/Valor

Alessandra de Souza manipula folhas de laranja no centro de citricultura do IAC

Uma cientista brasileira publicou pesquisa inédita em que associa a aplicação de uma molécula de um medicamento usado para tratar infecções respiratórias em humanos ao combate de fitopatógenos dos citros, incluindo o cancro.

A doença, que há três anos vem crescendo no Estado de São Paulo e já atingiu taxas de contágio preocupantes no Paraná, tem uma característica comum com alguns problemas respiratórios: o entupimento de veias pela formação de agregações de células. Essa agregações, chamadas de "biofilme", impedem, no caso da planta, a nutrição correta, provocando o amarelamento da folha.

"Há proteínas responsáveis por agrupamentos celulares no homem. Então o que eu fiz foi encontrar proteínas similares às das plantas", diz Alessandra Alves de Souza, bióloga molecular do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), vinculado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento.

Analisando a literatura de medicamentos humanos, Alessandra chegou à N-acetilcisteína (NAC), um agente farmacológico usado sobretudo na redução de secreções de muco. "Se no homem a molécula dissolvia aglomerações das células, por que não faria o mesmo na laranja?", questionou então Alessandra.

A aplicação do NAC nas plantas infectadas pela bactéria Xanthomonas citri, que provoca o cancro cítrico, reverteu de forma significativa a doença, afirmam os pesquisadores do IAC. Por isso, a equipe da pesquisadora já entrou com pedido de patente para a descoberta no Brasil e exterior.

O ineditismo está no fato de o controle estar sendo feito não com agrotóxicos, mas com princípio ativo de medicamentos. Hoje, o método de controle mais eficaz para o cancro é a pulverização de cobre sobre as plantas.

Durante quatro anos, os pesquisadores avaliaram a molécula como estratégia para inibir ou desagregar o biofilme bacteriano formado na superfície das folhas. Esse biofilme protege as bactérias de estresses ambientais e de compostos antimicrobianos, como o cobre. Assim, a inibição da formação dessa capa protetora na folha antes da infecção da planta era fundamental para tornar a bactéria vulnerável.

Os testes envolveram aplicações do produto por diferentes sistemas, como hidroponia e fertirrigação. Em ambos os casos, a doença voltou três meses depois da interrupção do tratamento. Então, a equipe do IAC acoplou o NAC a um adubo de liberação lenta. "Aí obtivemos um resultado melhor – a doença voltou só seis meses após a interrupção do produto", afirma Alessandra.

Segundo a cientista, a descoberta é uma alternativa interessante de combate ao cancro, já que o tratamento atual é à base de inseticida – que tem alto custo e impacto ambiental maior.

A partir de agora, as pesquisas evoluirão para lavouras experimentais em campo. A indústria se comprometeu a ceder o terreno e fazer o monitoramento das plantas. Se der certo, será um alívio para os produtores. Apesar de a doença ainda estar contida, dados do Fundecitrus apontam para um salto de mais de 250%, de 2009 para cá, nos casos de cancro cítrico em São Paulo. (BB)

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Fonte: Valor | Por De Campinas

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