Pesquisa de campo vai inventariar a vegetação

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Joberto Freitas, do Serviço Florestal Brasileiro: "É errado avaliar recursos apenas observando-os do alto"

Esquadrinhar o território brasileiro em porções distantes 20 km umas das outras para coletar informações em 20 mil pontos não é uma tarefa simples. Exigirá recursos de R$ 150 milhões e o trabalho de 5 mil técnicos para, ao fim de cinco anos, o país finalmente saber a "cara" que tem. "Os dados darão suporte a políticas e tomada de decisão sobre o uso econômico e a conservação da paisagem, incluindo florestas e demais tipos de vegetação, sem estarmos reféns das imagens de satélite e suas armadilhas", revela Joberto Freitas, diretor de pesquisa do Serviço Florestal Brasileiro (SFB).

"É errado avaliar recursos apenas observando-os do alto", argumenta Freitas, para quem faltam informações confiáveis em nível nacional sobre florestas, porque as diferentes metodologias até hoje empregadas não permitem comparações ao longo do tempo e estão restritas a algumas regiões. EUA e países da Escandinávia, por exemplo, fazem inventários florestais de campo desde a década de 1920. No Brasil, a única iniciativa aconteceu na década de 1980, mas teve como foco os estoques de madeira por conta da crise de suprimento de energia naquela época. "Hoje existem outros apelos, como biodiversidade, carbono e questões sociais", justifica Freitas, preocupado com a iniciativa isolada de alguns Estados que – como uma colcha de retalhos – iniciaram a varredura do território sem um método unificado.

O inventário nacional está sendo planejado há três anos. Recursos como estoques de biomassa e carbono, passarão a ser monitorados com base em informações de campo. Em cada ponto haverá coleta de amostras botânicas, que seguirão para pesquisas nos herbários do país, e um questionário socioambiental será aplicado junto a moradores no raio de 4 km. "O objetivo é entender as práticas de consumo, conhecer a relação das comunidades com os recursos florestais do entorno e detectar o grau de conhecimento sobre legislação e políticas", explica Freitas.

A cada 40 km será analisada a cobertura florestal, desde o chão até o topo das árvores, e também o tipo de relevo – itens não detectados por imagens de satélite rotineiras. Os dados nortearão projetos de reflorestamento para a criação de corredores de biodiversidade, essenciais ao trânsito da fauna e à conservação da água.

O trabalho é realizado em parceria com instituições estaduais. No Distrito Federal, onde o levantamento foi concluído em fevereiro, 25,3% do território está coberto por vegetação nativa, sobretudo de Cerrado, com identificação de 432 espécies da flora. Entre os moradores entrevistados, 40% captam água em nascentes e 90% afirmaram que, se pudessem, destinariam área para plantar floresta. No segundo semestre o inventário será iniciado no Rio de Janeiro, Paraná, Sergipe e Ceará, Estado coberto predominantemente por Caatinga – bioma exclusivamente brasileiro e ainda pouco conhecido.

"Obteremos informação inédita sobre o potencial madeireiro da Caatinga", estima Leonardo Alves, técnico da agência ambiental cearense. "O objetivo é planejar a exploração dos recursos com mais eficiência e menos impactos", afirma. Embora as informações hoje disponíveis sejam insuficientes para a garantia do uso sustentável neste bioma, existem 72,2 mil hectares sob manejo florestal no Estado. "Conheceremos melhor esse potencial, com expectativa de geração de renda na zona rural."

Em Santa Catarina, Estado que já finalizou o inventário, a floresta de araucária mostrou-se mais pobre do que se imaginava. "É preciso uma política urgente para enriquecê-la e eliminar impactos, como o gado que se protege entre as árvores no inverno e come a vegetação que se regenera naturalmente", recomenda Alexander Vibrans, da Universidade Regional de Blumenau, coordenador do trabalho de campo, que durou quatro anos. "A floresta cobre um terço do território estadual e 95% dela está degradada, apresenta baixa densidade de árvores, com reduzido estoque de biomassa e carbono, sem valor comercial", revela Vibrans.

Fonte: Valor | Por Sergio Adeodato | Para o Valor, de São Paulo

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