Pesquisa alerta para a presença de bactérias na carne suína

As três principais redes varejistas do país – Grupo Pão de Açúcar (GPA), Carrefour e Walmart – entraram na mira de organizações não-governamentais de defesa de saúde animal. Relatório divulgado na quinta-feira pela World Animal Protection, com base em pesquisa realizada pela Universidade de São Paulo (USP), chamou atenção para a detecção de bactérias resistentes a antibióticos "criticamente importantes" para a saúde humana em carne suína vendida nessas redes varejistas.

O tema é sensível. Nos últimos anos, o aparecimento de super-bactérias resistentes a antibióticos mobilizou ativistas em diversas partes do mundo em busca de mudanças na forma como os antibióticos são utilizados na pecuária. Até países como os EUA, historicamente mais liberais no que diz respeito às práticas veterinárias, endureceram as regras e proibiram o uso de antibióticos importantes para a saúde humana em animais, para evitar o desenvolvimento de resistência.

Comumente, criadores de aves e suínos utilizam antibióticos (cefalosporina, ampicilina, sulfanamidas e amicacina, entre outros) como promotores de crescimento. A prática vem sendo criticada, embora veterinários aleguem que os hospitais ainda são o principal vetor do aparecimento de super-bactérias.

Ao Valor, a professora responsável pelo estudo da USP, a veterinária Terezinha Knobl, afirma que as bactérias resistentes são um problema global. "Isso requer um olhar mais atento para uma política de controle e os países estão adotando medidas". Ela pondera que o resultado da pesquisa deve ser encarado sem alarde porque não aponta um "risco imediato" para o consumidor.

No relatório, a World Animal Protection menciona estimativa da Organização Mundial de Saúde (OMS) segundo a qual cerca de 700 mil pessoas morrem por ano no mundo em razão de infecções hospitalares por bactérias resistentes aos antibióticos. Até 2050, o número de mortes pode alcançar 10 milhões por ano. Além do Brasil, a organização também fomentou pesquisas paralelas na Tailândia, Espanha e Austrália – e apenas neste último não houve detecção de bactérias resistentes a antibióticos importantes em humanos.

No Brasil, a World Animal Protection coletou 100 amostras de carne suína em supermercados do Extra, Walmart, Carrefour e Pão de Açúcar em São Paulo. Desse total, 92% estavam contaminadas com a bactéria E. Coli, que pode provocar intoxicações alimentares se o produto não for cozido corretamente.

Após detectar as bactérias, a pesquisa conduzida pela USP testou sua resistência a determinados antibióticos. No caso das amostras colhidas em lojas de Extra e Pão de Açúcar, do GPA, foi confirmada a resistência da E. Coli ao antibiótico amicacina. Também foi detectada a resistência da bactéria Salmonela a sulfonamidas. Conforme o relatório, a amicacina é considerada pela OMS como antibiótico de "máxima importância crítica à saúde humana", ao passo que as sulfonamidas são "altamente importantes à saúde humana".

Procurado, o GPA informou que comercializa apenas carne suína de frigoríficos fiscalizados pelo Sistema de Inspeção Federal (SIF). "O GPA está comprometido a construir um plano de melhorias para o bem-estar animal na cadeia de suínos".

No Carrefour, foi detectada a presença de E. Coli resistente a cefalosporina e ampicilinba, antibióticos de "máxima importância crítica à saúde humana". A rede informou que, com o apoio da World Animal Protection, "aprimora sua política voltada ao bem-estar animal na cadeia de carne suína. A companhia já adota controles de qualidade para os produtos de origem animal que comercializa, incluindo sua marca própria, que atende a legislação vigente além de rígidas normas internas exigidas de seus fornecedores".

No caso do Wal-Mart, a pesquisa detectou a presença de E. Coli resistente à ceftiofur e colistina, também considerados de "alta importância e máxima importância crítica à saúde humana". Desde 2016, o uso de colistina como promotor de crescimento é proibido no Brasil, mas permitido, desde que sob prescrição veterinária, para uso terapêutico.

Procurado, o Walmart informou que audita todos os fornecedores de carnes. "Os fornecedores das lojas citadas no estudo foram auditados recentemente e, em todos os casos, tiveram uma avaliação 18 pontos percentuais acima da média aceita por critérios internacionais. A companhia também ressalta que os índices apresentados na pesquisa estão dentro dos exigidos pelo mercado".

Por Luiz Henrique Mendes | De São Paulo

Fonte : Valor

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