Peru bloqueia importação de carne bovina brasileira

Luis Ushirobira/Valor / Luis Ushirobira/Valor
Camardelli, da Abiec, minimiza o caso e diz que volume exportado não será afetado

Duas semanas após o Ministério da Agricultura confirmar que suspeitava da ocorrência de um caso de "vaca louca" no país e suscitar preocupações com a possibilidade de embargos à carne brasileira, o Peru se antecipou aos resultados dos exames que devem ser divulgados nesta sexta-feira e anunciou ontem um bloqueio de 180 dias à carne bovina brasileira. Somadas a restrições extra-oficiais de Egito e Irã, Mato Grosso, onde foi registrado o caso suspeito, já vê quase 30% de suas exportações comprometidas, mesmo que temporariamente.

Ainda que o Peru tenha sido o único país a barrar oficialmente a carne brasileira até agora, Irã e Egito também têm dificultado as exportações de carne bovina de Mato Grosso, afirmou ao Valor o presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Antônio Camardelli.

Sem caráter oficial, a restrição do Irã é perceptível a partir da negativa de veterinários ligados ao órgão sanitário do país em certificar a carne produzida nos frigoríficos de Mato Grosso, disse Camardelli. No Egito, o problema acontece na área de emissão de licença para os importadores.

Do ponto de vista comercial, essas restrições são representativas, ao menos para Mato Grosso, Estado que representa quase 15% das exportações de carne bovina do país. Juntos, Egito e Irã absorveram 28,4% dos embarques de carne do Estado no primeiro trimestre de 2014, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) compilados pelo Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea).

No caso do Peru, que barrou a carne bovina de todo o Brasil, o impacto é bem menor. Em 2013, os peruanos importaram 1,5 mil toneladas de carne bovina brasileira, o que significa apenas 0,1% do total de 1,499 milhão de toneladas exportadas, segundo dados compilados pela Abiec. Porém, o Peru é um importante importador de coração bovino.

Apesar desses problemas, a indústria minimiza o impacto que o caso de "vaca louca" pode ter tanto para as exportações quanto para o desempenho das ações dos três maiores frigoríficos brasileiros – JBS, Marfrig e Minerva.

"Se houver restrições, elas serão temporárias e restritas a Mato Grosso", disse ontem o presidente da Minerva, Fernando Galletti de Queiroz, em teleconferência com analistas. No caso da Minerva, o impacto é baixo, visto que a empresa não tem plantas em Mato Grosso.

Para Camardelli, da Abiec, não é preciso fazer contas dos prejuízos provocados pelas restrições de Peru, Egito e Irã. Segundo ele, a indústria brasileira tem capacidade para redirecionar as exportações de carne bovina a partir de outros Estados. "Não precisa fazer essa conta porque os frigoríficos têm capilaridade e passam a exportar de outros Estados", afirmou ele.

A posição da Organização Mundial de Saúde Animal (OIE), entidade que baliza as decisões sanitárias dos países-membros da Organização Mundial de Comércio (OMC), pesa a favor do Brasil, afirmou Camardelli. "A OIE dá o episódio como encerrado", disse. De fato, uma notificação de OIE obtida peloValor trata a ocorrência da doença em Mato Grosso como "resolvido".

Sob a perspectiva sanitária, porém, o desfecho do caso só deve ocorrer hoje, com a divulgação do último dos exames realizados no laboratório de referência de Weybridge, no Reino Unido. De acordo com o Ministério da Agricultura, esse exame tem a função de confirmar que o bovino sacrificado em Mato Grosso tinha o caso atípico de "vaca louca", considerado menos grave. Todos os indícios apontam para um caso atípico da doença, como já informou o ministério.

A partir da oficialização de que foi um caso atípico, afasta-se definitivamente a hipótese de um surto do de "vaca louca". Conhecida cientificamente como Encefalopatia Espongiforme Bovina (EEB), a doença neurodegenerativa normalmente está associada à ingestão de farinha de carne e ossos de animais infectados. Em média, a idade dos animais infectados pelo tipo clássico da doença é de 2 a 5 anos. O Brasil nunca registrou um caso clássico e detém hoje o status de risco "insignificante", conferido pela OIE.

No caso atípico, os animais não contraem a doença por meio da alimentação, mas espontaneamente devido à idade mais avançada – em geral, acima de dez anos. No caso mato-grossense, a vaca doente tinha 12 anos. Além disso, o animal se alimentou apenas de pasto e sal mineral. O uso de farinha de carne e ossos na dieta bovina é proibido no Brasil. Também pesa a favor do país os exames realizados com 49 bovinos em regiões onde a vaca doente foi encontrada – os exames de todos deram negativo para a "vaca louca".

Na BM&FBovespa, o efeito da doença é praticamente nulo. Desde que o Ministério da Agricultura reconheceu a suspeita, as ações da JBS subiram 3,4%, as da Marfrig, 7,6% e as da Minerva recuaram 0,3%.

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Fonte: Valor | Por Luiz Henrique Mendes | De São Paulo

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