Percepção sobre escassez ainda é relativa no campo

O que acontecerá com a disponibilidade água no Brasil, a partir do anúncio de que a atmosfera alcançou a concentração de 400 partes por milhão (ppm) de dióxido de carbono, nível previsto como de alarme do aquecimento global, segundo o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC)?

Uma única ocorrência não estabelece tendência, assim como um inverno prematuro é insuficiente para projetar o futuro climático do planeta, argumenta o professor José Antônio Marengo, membro do IPCC e pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Mas ele alerta: "Estamos atingindo um regime de extremos climáticos, sobretudo relacionados à água, como tempestades e secas intensas. Adaptação às mudanças climáticas deveria ser palavra de ordem. Mas só alguns setores, como o das seguradoras, estão se adaptando".

O aumento de extremos hidrológicos pode comprometer segmentos da economia mais dependentes de recursos hídricos, diz o professor José Galisia Tundisi, ex-presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), e secretário de Ciência e Tecnologia de São Carlos (SP). Mas para ele, a crise da água no século XXI é mais de governança do que de escassez, estresse e deterioração da qualidade da água.

"Por ter entendido a importância da água como componente econômico da produção, o setor produtivo tem investido no controle do uso da água, tratamento de efluentes e reúso", cita. Mas isso é pouco para enfrentar a rápida degradação do planeta. "Precisamos de uma visão sistêmica, compreendendo os usos múltiplos da água, e a gestão descentralizada nas bacias hidrográficas, focando na recuperação dos recursos naturais, que são finitos", resume.

José Galisia Tundisi cita a taxa 69% da água doce que o Brasil consome na irrigação agrícola, o dobro do consumo com abastecimento, como sinal de desperdício e de resistência cultural à mudança de paradigma, dado que há tecnologias acessíveis de menor consumo.

A engenheira agrônoma Janaína Paulino, que por dois anos debruçou-se sobre a questão da percepção dos produtores rurais brasileiros quanto ao uso da água, concorda. "O que mais surpreendeu foi o alto índice de respostas negativas dos extensionistas e técnicos, que orientam agricultores e pecuaristas, a perguntas como: você sabe quanta água possui para irrigar?, ou então "você considera as perdas de água nesse processo?", diz ela.

Janaína desenvolveu o estudo com mais 13 pesquisadores da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq/USP) e suporte da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e CNPq. "Notamos um índice significativo de relatos sobre mudanças recentes na disponibilidade hídrica no meio rural", avalia ela. (SC)

© 2000 – 2012. Todos os direitos reservados ao Valor Econômico S.A. . Verifique nossos Termos de Uso em http://www.valor.com.br/termos-de-uso. Este material não pode ser publicado, reescrito, redistribuído ou transmitido por broadcast sem autorização do Valor Econômico.
Leia mais em:

http://www.valor.com.br/empresas/3149702/percepcao-sobre-escassez-ainda-e-relativa-no-campo#ixzz2VLPHpz3w

Fonte: Valor | Por De São Paulo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *