Paulista Ceagro renegocia dívidas

Em dificuldades financeiras desde o ano passado, a Ceagro, trading de grãos com sede em Campinas (SP), está trabalhando na criação de uma nova estrutura de governança que permita à empresa reforçar sua proteção contra as incertezas do mercado. Com uma dívida expressiva, estimada em R$ 800 milhões, a Ceagro tem se dedicado nos últimos dias a um reperfilamento desse montante junto aos credores, e espera que as negociações cheguem a um desfecho em breve, conforme apurou o Valor.

Segundo fontes a par do assunto, os sete bancos credores da Ceagro (ABN Amro, Banco da China, BTG Pactual, Credit Suisse, Itaú BBA, Santander e Votorantim) têm sido chamados à mesa de negociação para tentar solucionar o impasse com a trading. A empresa é assessorada pela KPMG e pelo escritório Felsberg Advogados. Da dívida total, em torno de US$ 100 milhões se referem a bônus da empresa e os demais R$ 500 milhões estão pendentes junto aos bancos, entre dívidas vencidas e a vencer.

O problema central, disse uma fonte, é que o fluxo de caixa da empresa veio sofrendo com a intensa oscilação cambial dos últimos meses, os preços da soja e do milho no mercado internacional recuaram e houve uma postergação da entrega de commodities pedida por alguns clientes. Como já acumulava dívidas com os bancos, houve um bloqueio no recebimento de contratos – mais especificamente, os Adiantamentos sobre Contrato de Câmbio (ACC) – que, somado a um enxugamento das ofertas de linha de crédito, acabou por nocautear a liquidez da companhia.

Apesar do mesmo nome, a empresa não tem relação com a antiga Ceagro de Goiás, que foi adquirida em 2013 pela japonesa Mitsubishi e acabou rebatizada como Agrex do Brasil. Criada há quase 30 anos por Antônio Carlos Gonçalves Jr., a Ceagro paulista iniciou como corretora de mercadorias, mas logo a operação ganhou mais complexidade. Com a originação hoje concentrada em Mato Grosso, a empresa está posicionada entre as principais tradings agrícolas de capital nacional.

O crescimento "rápido e de forma não muito planejada" nos últimos cinco anos contribuiu para a desestabilização da Ceagro, afirmou outra fonte ao Valor. Acostumada a originar entre 1 milhão e 1,5 milhão de toneladas de grãos, a companhia elevou esse volume para 2,4 milhões no ano passado, o que lhe rendeu um faturamento pouco abaixo de R$ 2 bilhões.

De acordo com essa mesma fonte, a ausência de mecanismos de defesa de suas atividades ajudou a complicar a situação da Ceagro. "Os contratos não previam penalidade ao cliente que pedia a postergação da entrega de commodities e a empresa teve de arcar com esses custos", disse. Além disso, houve um descasamento entre o valor dos grãos fixado pelos clientes (mais baixo) e o preço de aquisição junto aos produtores (mais alto), o que fez a Ceagro "perder nas duas pontas".

A reorganização da empresa deve passar por um cuidado maior com esse tipo de descasamento de prazos e também por uma política mais eficiente de proteção (hedge) cambial, afirmou ao Valor uma pessoa próxima à Ceagro. Conforme a fonte, a empresa não deixou de pagar produtores nem de entregar grãos aos clientes. Assim, "está operando normalmente" e não trabalha – ao menos neste momento – com a hipótese de recuperação judicial, embora seja "uma opção, dentre vários caminhos possíveis", afirmou a fonte.

Procurados, ABN Amro, Banco da China, BTG Pactual, Credit Suisse, Santander e Votorantim disseram que não comentariam o assunto. O Itaú BBA não retornou o contato.

Por Mariana Caetano | De São Paulo
Fonte : Valor

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