Passados 20 anos, o que se confirmou da Eco-92

Especialistas traçam comparativo entre o que era discutido na Rio 92 e o que é realizado hoje

Passados 20 anos, o que se confirmou da Eco-92 Felipe Dana/AP

População indígena acompanha debates sobre os rumos do meio ambiente no mundoFoto: Felipe Dana / AP

Na Rio 92, foram discutidos assuntos bastante atuais. Alguns aspectos evoluíram, surpreenderam e se confirmaram. Outros são tratados hoje, na Rio + 20 como obsoletos. Zero Hora separou alguns dos principais temas da última edição do encontro no Brasil e convidou especialistas para traçarem um comparativo. Veja:

SUSTENTABILIDADE

Em 1992

— O conceito de desenvolvimento sustentável era abstrato e genérico. Dizia-se que as necessidades presentes deveriam ser respeitas, sem comprometer as necessidades futuras, mas não se estabelecia quais eram essas necessidades.

— Estaria presente apenas no âmbito das políticas públicas.

— Produtos deveriam ter durabilidade estendida.

Hoje

— O conceito está mais concreto, fortalecido e com metas mais claras. Vários dos eixos do desenvolvimento sustentável (social e econômico) estão identificados.

— Transpôs do âmbito das agendas públicas para o setor privado, com o conceito de marketing verde, a partir do final da década de 1990.

— Há a "obsolência programada": muitos produtos são fabricados para ter vida útil curta.

AMAZÔNIA

Em 1992

— Dizia-se que era o pulmão do mundo. Havia forte pressão sobre o governo brasileiro para que contivessem a exploração econômica da região, temendo que houvesse uma exploração mais intensa ainda. O ritmo de desmatamento era aumentado sistematicamente desde 1980 e a preocupação com a conservação desses recursos era posta em questão, recomendando-se que a Amazônia não fosse mais explorada economicamente.

— Colocava-se a perspectiva de uma perda de biodiversidade acentuada em um dos refúgios ecológicos mais representativos do mundo.

Hoje

— Ficou comprovado que consegue-se explorar a Amazônia intensamente por meio de uma economia sustentável e ordenada, com maior responsabilidade sobre a gestão do território. O Brasil superou o desafio, enfatizando processos sustentáveis. Se percebe uma redução no desmatamento anual desde 2003. Isso foi conquistado muito pela pressão dos consumidores. Dificilmente uma empresa asiática ou europeia contrata uma firma que utiliza processos que sejam contrários ao meio ambiente.

— O temor foi amenizado e o número de espécies ameaçadas se reduziu durante o período e, embora ainda haja a preocupação, não se confirmou a extinção total.

CAMADA DE OZÔNIO

Em 1992

— Era o foco das discussões.

— Previsão de que houvesse redução considerável no buraco de Ozônio em 60 anos. Isso foi previsto por causa da redução da produção de gases prejudiciais à camada devido à assinatura de uma série de protocolos no início da década de 1990.

Hoje

— Perdeu espaço a partir de 1997, com a assinatura do Protocolo de Quioto, (achava-se que o protocolo daria conta do assunto, isso aconteceu em um ritmo mais lento do que esperado e mudou-se o assunto). O foco passou a ser mudanças climáticas.

— O problema ainda é real tendo atingido a maior área em 2006. A previsão agora é de que só se reduza consideravelmente em 2060.

EFEITO ESTUFA

Em 1992

— A intensidade de acumulação de gases do efeito estufa seria menos intensa, já que não se previa a ascensão da China e da Índia. Não havia uma ideia muito clara de como afetaria a população.

— O controle das empresas em termos de emissão de gases seria mais intenso.

— O único culpado pelo aumento do efeito estufa é o homem.

Hoje

— A intensidade de acumulação é maior do que se esperava e continua disparando. A previsão mais recente dá conta de que serão os mais pobres os mais afetados por essa desordem, via agricultura, o que já está havendo. Isso provocará pior distribuição de renda e uma situação de vulnerabilidade para milhões de pessoas. Há duas semanas foi registrado um alto índice de 400 partes por milhão, o que se traduz em um aumento de 43% desde 1800.

— Os controles de emissões de poluentes se tornaram mais eficientes. Em compensação as indústrias cresceram aumentando parques industriais, frotas de automóveis etc.

— Uma parcela dos cientistas acredita que são os fenômenos naturais os que mais contribuem e que o homem seria capaz apenas de acelerar o processo.

MUDANÇAS CLIMÁTICAS

Em 1992

— Descongelamento do Oceano Ártico mais lento. Dizia-se que não teria mais mar congelado durante o verão ártico em 2060.

— Aumento da temperatura média global.

— Os eventos extremos, como enchentes e seca, se tornariam mais frequentes. Em 2060, a situação ficaria mais séria.

— Aceleração do derretimento das geleiras das montanhas e consequente elevação nível do mar.

Hoje

— O cenário ficou muito pior do que se esperava. A partir de 1994 disparou o derretimento no Oceano Ártico. Está sendo revisado o prazo de não haver mais mar congelado para 2035.

— Confirmou-se. A temperatura média do planeta continuou aumentando até os anos 2000. Depois estabilizou na temperatura daquele ano. De 92 até agora aumentou 0,2°C na temperatura média global. É muito se levarmos em conta que, desde 1860, o aumento é de 0,8°C.

— Há maior variabilidade nas condições climáticas. Um exemplo é essa semana com temperaturas elevadas no Rio Grande do Sul às vésperas do inverno. A previsão de que a situação fique mais séria daqui a cinco décadas se mantém.

— Confirmou-se. O centro da Antártica é estável. É observado derretimento no sul da Groelândia e isso tudo é o gelo que está em cima das geleiras e contribui para o aumento do nível do mar, que é de um a dois milímetros por ano.

Fontes: Gustavo Inácio de Moraes, professor da faculdade de Economia da PUCRS, Carlos Alberto Mendes Moraes, coordenador da Faculdade de Engenharia Ambiental da Unisinos e Jefferson Cardia Simões, diretor do Centro Polar e Climático do Instituto de Geociências Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Fonte: Zero Hora

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