Participação maior do agro exterior passa por viés mais comercial do governo

Brasil tem condições de expandir produção e exportação de proteínas, mas precisa ser mais duro com parceiros

Gado confinado para exportação em fazenda em Sales (SP)
Gado confinado para exportação em fazenda em Sales (SP) – Diego Padgurschi – 10.set.18/Folhapress

O setor de proteínas esteve reunido nesta quarta-feira (10) para discutir como o Brasil poderá aumentar a capacidade de produção para atender a demanda mundial futura de alimentos.

Durante o seminário Horizons, realizada em Atibaia (SP), entidades e produtores apontaram o potencial que o país ainda tem para ser explorado.

Algumas das mudanças devem vir de dentro da porteira. Outras, como escoamento de produtos e um foco maior do governo na política comercial no exterior, já estão fora do alcance dos produtores.

Roberto Jank, da Agrindus, produtora de leite, diz que o setor tem de ser mais intensivo e usar mais e melhor os recursos finitos.

O modelo de produção não é prioritário, mas o produtor tem de mostrar que consegue fazer. Afinal, o maior custo na pecuária é o das oportunidades, diz ele.

A intensificação de produção no setor poderia liberar pelo menos 20 milhões de hectares de terra já aberta para a sociedade.

Jank destaca que a produção brasileira cresceu muito nas últimas décadas, mas ainda tem um longo caminho a percorrer. De 1974 a 2016, o Brasil avançou 374% no setor de leite. A média mundial do período é de 71%.

Para Francisco Turra, da ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal), o status sanitário do Brasil é um trunfo, e o país tem condições de oferecer um produto diferenciado ao mercado externo.

"Precisamos, porém, de um governo forte e que veja o mercado externo como uma via dupla". O país se curva demais perante outros parceiros, o que dificulta as negociações, segundo o executivo da ABPA.

Um setor que ainda tem muito a crescer é o da piscicultura, mas também encontra os mesmos gargalos das demais proteínas. Os problemas vão de licenciamento a escoamento de produtos.

A avaliação é de Ricardo Neukirchner, da Peixe BR, entidade que reúne produtores do setor. Para ele, o país tem água e diversidade de espécies. Além de ser uma atividade sustentável, "a piscicultura é uma máquina de conversão alimentar", diz. A cada 1,2 quilo de ração, o produtor consegue 1 kg de carne.

A produção brasileira de peixe é de 692 mil toneladas por ano, mas o país tem capacidade de produção de 3 milhões de toneladas, se aprovados os projetos submetidos ao governo.

Antonio Camardelli, da Abiec (Associação Brasileira das Industrias Exportadoras de Carnes), afirma que, para continuar suprindo o mundo com produto brasileiro, não basta apenas aumentar a produtividade, mas é preciso estruturar melhor o sistema de escoamento.

O executivo da Abiec concorda com Turra de que o Brasil precisa ter um viés mais comercial no governo. A carne bovina brasileira está fora de 40% dos mercados que melhor remuneram a proteína, diz ele.

O jornalista viajou a convite da Trouw Nutrition

Vaivém das Commodities

A coluna é assinada pelo jornalista Mauro Zafalon, formado em jornalismo e ciências sociais, com MBA em derivativos na USP.

Fonte: Folha