Parceria Transpacífico faz Canadá vender mais carne ao Japão

AP

Confinamento de bovinos no Canadá: saída dos EUA da TPP abriu espaço para o produto do país no mercado japonês

As importações japonesas de carne bovina canadense dispararam desde o início da Parceria Transpacífico (TPP), em 30 de dezembro. Segundo analistas, esse é um sinal inicial do preço que os produtores dos Estados Unidos poderão pagar pela política protecionista adotada por Washington.

Embora ainda não existam dados oficiais, traders dizem que houve um salto das importações do Japão de carne bovina produzida por signatários da TPP, um acordo que inclui 11 países-membros, sendo o Canadá o principal favorecido.

A mudança do perfil das importações japonesas de carne bovina mostra as consequências imediatas da decisão do presidente Donald Trump de retirar os EUA da TPP. E torna urgente a negociação de um acordo paralelo entre EUA e Japão.

"Houve, sem dúvida, um aumento das importações procedentes dos países da TPP", disse Yuko Onizawa, diretora da associação de comércio de carne bovina do Canadá em Tóquio. Ela disse que as consultas dos supermercados aumentaram significativamente.

Uma consequência imediata da TPP foi a queda das tarifas do Japão sobre a carne bovina resfriada, de 38,5% para um nível inicial de 27,5%. Isso dá aos exportadores australianos, canadenses e neozelandeses uma vantagem de 11 pontos percentuais em relação aos produtores americanos no mercado japonês.

"A diferença de tarifas é um grande desafio para nós", disse Takemichi Yamashoji, diretor da Federação dos Exportadores de Carne dos EUA, um dos que têm pressa para que Tóquio e Washington entrem em acordo a fim de reduzir essa discrepância.

Conversações entre os dois países foram adiadas em razão da paralisação do governo dos EUA, mas deverão ter início em breve. O Japão deu indícios de que fará concessões aos EUA na área agrícola semelhantes às praticadas no TPP caso o país se abstenha de cobrar tarifas sobre os automóveis japoneses. Não está claro, no entanto, se isso será suficiente para satisfazer Trump.

Yuko Onizawa disse que o Canadá sabe que sua vantagem pode ser temporária e quer usar essa janela de oportunidade. "Nosso real objetivo é divulgar a qualidade da carne bovina canadense", disse ela.

Segundo diretores da associação de carne bovina do Canadá, os ganhos iniciais do país ocorreram à custa da Austrália. Os australianos tinham um acordo comercial anterior com o Japão, portanto já usufruiam de tarifas preferenciais, enquanto a demanda chinesa por carne bovina australiana disparou desde que os dois países fecharam um acordo de livre-comércio, em 2015.

"As importações americanas não mudaram muito. Em vez disso, a demanda que estava indo para a Austrália foi desviada para o Canadá", disse Yu Oana, do departamento de carne bovina da distribuidora atacadista de alimentos processados Sojitz Foods Corporation.

O Japão divide suas importações, entre a carne australiana, de animais alimentados a pasto, principalmente usada para a produção de hambúrgueres, e a carne bovina da América do Norte, de animais alimentados com ração, que é mais gordurosa e é muito usada em restaurantes no preparo do "gyudon", prato japonês à base de arroz e carne bovina.

Em 1º de fevereiro, as tarifas sobre as importações de carne bovina europeia também caíram para 27,5% após a entrada em vigor do acordo de livre-comércio entre União Europeia e Japão, mas deverão ter um impacto insignificante sobre o mercado japonês.

Os produtores britânicos vão perder a tarifa mais baixa a partir de 30 de março caso saiam da UE. De acordo com o previsto na TPP, as tarifas cobradas pelo Japão sobre a carne bovina vão cair progressivamente para 9%, uma mudança que deverá elevar acentuadamente a demanda por carne num país historicamente consumidor de peixe.

"Se os preços caírem, isso será uma arma para nós", disse Kunio Ichinose, fundador da rede de restaurantes Ikinari Steak, que se abastece de carne bovina importada. "Se conseguirmos baixar os preços, atrairemos clientes. Tenho altas esperanças". (Tradução de Rachel Warszawski)

Por Robin Harding | Financial Times, de Tóquio

Fonte : Valor

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