Paraná torce por uma safrinha robusta

Elvira Alegre/Divulgação

António Sampaio, presidente da SRP: gestão e políticas têm de ser eficientes

Há pelo menos dez anos os agricultores do Paraná não fazem tanto esforço para acreditar no que leem nos boletins sobre milho. Depois da forte quebra da safrinha observada no ciclo passado (2017/18), neste ano, aparentemente, vai tudo bem. As estimativas asseguram que a recuperação será expressiva e que haverá oferta suficiente para os mercados doméstico e externo. No campo, porém, o que veem são sinais preocupantes, sobretudo em polos no norte e no noroeste do Estado. As chuvas estão irregulares num momento em que não deveriam estar. E, depois dos problemas com o cereal no ano passado e com a soja já nesta temporada 2018/19, é desnecessário dizer que uma nova frustração vai colocar muita gente nas cordas.

"Em algumas regiões do Estado, será a pior sequência [safrinha de milho-safra de soja-safrinha de milho] em pelo menos dez anos", diz Rita Regina Rocha, diretora da Sociedade Rural do Paraná (SRP). Pecuarista e produtora de grãos em Umuarama, no noroeste paranaense, ela resume um sentimento comum, ilustrado por números.

Nos cálculos do Ministério da Agricultura, o valor bruto da produção ("da porteira para dentro") de soja deverá cair 21,4% em 2019 em relação ao ano passado, para R$ 19,1 bilhões. O do milho poderá subir 31,7%, para R$ 7,9 bilhões. Mas são os mesmos produtores que investem nas duas culturas, e a soma dos VBPs aponta para uma queda de quase 11%, para R$ 27 bilhões. Mais de R$ 3 bilhões a menos de receita total conjunta, e isso se a safrinha de milho for de fato robusta. Em tempos de comércio fechando as portas em polos como Londrina, é uma má notícia.

O Paraná é o segundo maior Estado produtor de grãos do país, atrás apenas de Mato Grosso. Por causa da falta de chuvas e do calor escaldante no verão, especialmente no noroeste, no oeste e no norte, perdeu nesta safra o segundo posto na soja para o Rio Grande do Sul, o que não acontecia desde meados dos anos 1990. "O oeste levou fumo no verão, mas deve ter uma boa safrinha. Mas no norte e no noroeste a situação é preocupante", diz o produtor Ricardo Gomes de Araújo, que planta soja e milho no verão e milho e trigo no inverno em Bela Vista do Paraíso, município vizinho a Londrina, um dos principais polos do norte paranaense.

Até agora, o Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria da Agricultura do Paraná estima que a produção estadual de soja registrará queda de 16% em 2018/19, para 16,1 milhões de toneladas, e que a safrinha de milho crescerá 42%, para 13 milhões. Marco Antonio de Paula, gerente de negócios da Cocamar, cooperativa com sede em Maringá e atuação no norte e no noroeste do Paraná, além de São Paulo e Mato Grosso do Sul, torce para que essa recuperação se confirme, pelo bem dos 13 mil associados do grupo. "Já vimos a inadimplência de alguns cooperados crescer depois das quebras da safrinha passada e da soja agora", afirma.

Na safrinha de milho do ciclo 2017/18, observa o agropecuarista Hugo Virmondes Borges, o custo de produção subiu para R$ 55 por saca de 60 quilos colhida por causa da quebra da produção – seria bem menos em caso de colheita cheia -, e hoje, no mercado, a venda sai por cerca de R$ 32. Sem uma estrutura sólida de seguro rural, que é um dos focos de Tereza Cristina à frente do Ministério da Agricultura, trata-se de um rombo difícil de ser tapado.

Carla Sanches Rossato, que produz grãos nos municípios de Sertaneja e Santa Mariana, no extremo norte paranaense, é um termômetro de como o clima tem sido irregular mesmo em uma mesma região do Estado – o que muitas vezes, diante dos grandes volumes produzidos, mascara problemas localizados. "Em lavouras distantes 7 quilômetros uma da outra, a diferença de produtividade da soja chegou a 30% nesta safra", disse.

Antônio de Oliveira Sampaio, presidente da SRP, usa esses exemplos para chamar a atenção para a necessidade não só de gestões de propriedades eficientes, mas também de uma política agrícola oficial sólida e ágil, com seguro e crédito disponíveis e capazes de oferecer alguma proteção às margens dos produtores. "E o risco agronômico hoje cresceu", completa Luiz Meneguel Vilela, sócio da holding SL. "Antes a soja era estável e o milho oferecia risco. Agora, com as sementes precoces e superprecoces, plantar soja também é arriscado".

O jornalista viajou a convite da SRP

Fonte : Valor