Para se tornar global, BRF já investiu US$ 1,6 bilhão

Silvia Costanti/Valor
À frente da BRF desde abril de 2013, Abilio Diniz admitiu "erros" no Brasil

"Não se empurra barbante. Barbante se puxa". À frente da BRF há três anos e nove meses, o empresário Abilio Diniz expressa dessa maneira o desafio que se impôs para alçar a empresa à condição de companhia global de alimentos. Se antes a BRF puxava barbante, "empurrando" produtos para os clientes, hoje é o consumidor quem move a empresa que, aos poucos, vai tomando a forma projetada quando o empresário chegou ao comando do conselho de administração.

Após investir US$ 1,6 bilhão para se internacionalizar – o último movimento foi a compra da turca Banvit, anunciada segunda-feira-, a BRF deixa de ser uma "mera" exportadora de carne de frango e, ao que tudo indica, deve mesmo abrir o capital de sua subsidiária OneFoods, a maior empresa de alimentos halal do mundo.

Em entrevista exclusiva ao Valor, Abilio Diniz enfatizou que o processo de globalização da BRF, que já levou a mais de 15 "movimentos" entre investimentos em aquisições, joint ventures e fábricas no exterior, não está completo – ou seja, há mais a caminho.

"Você ainda não pode dizer que [a BRF] é completamente global. Está em processo", disse. A tendência é que a fatia de vendas no exterior, que passou de 41% para 53% em quatro anos, siga crescendo. Segundo Abilio, a BRF poderá avançar na África e também no Leste Europeu, onde a turca Banvit tem uma unidade.

"Estamos muito avançados em Angola e na Namíbia", disse, citando reunião que teve em 2016 com o presidente namíbio. Na ocasião, o dirigente africano incentivou a BRF a ter fábrica no país a partir da qual distribuiria produtos no continente.

Menina dos olhos da cúpula da BRF, o mercado muçulmano é onde a empresa mais avançou – o que não deixa de ser uma herança de Sadia e Perdigão, que desbravaram a Arábia Saudita para o frango brasileiro nos anos 1970. Atualmente, a BRF tem 45% do mercado de carne de frango do Oriente Médio.

Inicialmente, a estratégia da BRF no mercado muçulmano consistiu na aquisição de ativos de distribuição de alimentos no Kuwait, Qatar e Omã. "Nós dominamos a distribuição", disse. Ao avançar na cadeia e não se restringir à produção, a BRF facilitou o caminho para escoar a produção da unidade de Abu Dhabi, inaugurada em novembro de 2014.

Além do Oriente Médio, a expansão nos mercados muçulmanos chegou à Malásia e à Turquia, culminando na consolidação da OneFoods, subsidiária que surge com um faturamento anual superior a US$ 2,5 bilhões – incluindo a Banvit.

Ressaltando não haver uma decisão, Abilio disse que é "viável" realizar o IPO da OneFoods no "curto prazo" e também admitiu que a está propenso a fazê-lo. "Não dá para dimensionar o tamanho, mas acreditamos que o IPO é o caminho".

O empresário também se defendeu de críticas feitas sobre o recente investimento anunciado na Turquia, país envolto em instabilidade geopolítica. "Tem gente que fica falando [que] é um país muito complicado. Não é verdade. O país está cada vez mais consolidado, tem instituições sólidas, com garantias a todo o setor privado", argumentou Abilio.

Ao mesmo tempo em que foi enfático na defesa da estratégia de expansão internacional, Abilio admitiu "erros" na condução dos negócios no Brasil, onde a BRF tem perdido fatia de mercado ao menos desde 2014, sobretudo para a JBS. Como mostrou o Valor, a empresa está prestes a perder o contrato de fornecimento de hambúrguer para o McDonald’s no Brasil. A rival JBS vai se tornar a fornecedora exclusiva.

Segundo ele, a reintrodução da Perdigão – marca suspensa por determinação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) – não foi satisfatória. "Preparamos o retorno da Perdigão com a certeza de que íamos dar um grande salto em market share. Isso não aconteceu. Culpa de quem? Nossa. É hora de olhar para o espelho e não pela janela", disse. Para tentar reverter a situação, a BRF tomará medidas no curto prazo. "Estamos retomando a estratégia de marketing", afirmou, sem dar detalhes.

Por outro lado, ele frisou que os resultados mais fracos de 2016 – a margem Ebitda caiu de 23,5% para 13,2% entre janeiro e setembro – só podem ser entendidos no contexto cíclico das commodities. No último ano, a empresa sofreu com a disparada dos preços do milho, além da apreciação do real.

Abilio sinalizou que deve continuar à frente da BRF, afastando especulações de que deixará a companhia. Seu mandato como presidente do conselho de administração termina em abril, mas pode ser renovado. "Sou apaixonado pela BRF. Não consigo ver o Abilio saindo da BRF", concluiu.

Fonte: Valor | Por Luiz Henrique Mendes | De São Paulo

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