Para conter nuvem de gafanhotos em Paraí, em 1947, população fez até promessa

Moradores ainda bateram panelas e queimaram capoeiras para afastar insetos

24/07/2020 – 07h36minAtualizada em 24/07/2020 – 07h41min
RODRIGO LOPES

acervo de família,divulgação / Divulgação

A bucólica Paraí em meados da década de 1940, quando a população bateu panela e fez até promessa para conter a fúria dos gafanhotosacervo de família,divulgação / Divulgação

As recentes notícias e imagens sobre a nuvem de gafanhotos que avançou sobre a Argentina trazem a lembrança de um episódio semelhante ocorrido no município serrano de Paraí 73 anos atrás. A história, recheada de detalhes curiosos, foi compartilhada pela historiadora e pesquisadora Simone Bordignon, cujo texto reproduzimos a seguir:

“Ficou gravado na memória de todos os que viviam em Paraí na década de 1940 o avanço de milhões de gafanhotos. Os antigos usavam a expressão “nuvem de cavalette” para definir a invasão, que ocorreu nos meses de setembro e outubro de 1947. O fato ocorreu em Paraí e também em outros lugares da região. Os gafanhotos devoravam todas as plantações que encontravam pela frente, e os agricultores não tinham como detê-los. Tentavam espantá-los, fazendo barulho e queimando capoeiras. Moradora antiga de Paraí, Efigênia Dal Pozzo relatou que, na cidade, todos os moradores se reuniram para bater latas, panelas, assoviar, enfim, fazer barulho para tentar impedir que os gafanhotos pousassem. Padre Félix Busatta, vigário por 43 anos em Paraí, permitiu até mesmo que fosse tocada gaita, a qual ele chamava de “sino do diabo”, tudo para espantar os gafanhotos”.

Trigo e promessa

Conforme relatado pela historiadora, a ameaça foi tão grande que o vigário convidou os paroquianos a fazer uma promessa a São Brás, padroeiro do município de Paraí. Os agricultores doariam à igreja quatro quilos de trigo a cada saca colhida caso os gafanhotos não causassem tantos danos.

“Pessoas entrevistadas que vivenciaram o acontecimento contaram que os gafanhotos arrasaram as plantações de trigo que estava espigando, mas, como num milagre, o trigo rebrotou com força total, dando uma grande colheita. Alguns agricultores chegaram a colher o dobro da produção. O entrevistado Natal Bisinella afirmou: “Meu Deus! foi o melhor ano para o trigo. Ele veio depressa, e no pedaço de terra que nós ‘produzia’ 10 sacas, produzimos 20”.

acervo de Zélide Brandalise,divulgação / Divulgação

Década de 1940: a igreja matriz de Paraí e a casa de madeira que abrigava o Grupo Escolaracervo de Zélide Brandalise,divulgação / Divulgação

Ovos, filhotes e pó

Em cumprimento à promessa, em 1949 começou a ser construída em Paraí a gruta de Nossa Senhora de Lourdes. Já no dia 25 de janeiro de 1950, a construção foi benzida pelo Bispo Diocesano Dom José Barea, como parte das comemorações pelos 25 anos da tomada de posse do vigário Félix Busatta na cidade.

Conforme Simone, depois de 10, 12 dias, os gafanhotos foram embora, mas o sofrimento dos agricultores não acabou:

“Começaram a nascer os ovos deixados por eles. Os insetos pequenos não voavam. Então, eram amontoados, enterrados ou queimados. Boa parte dos agricultores recebeu da prefeitura de Nova Prata, município ao qual pertencia Paraí, pó de gafanhoto, que espalhado na terra matava os insetos em segundos”.

Acervo de Ada P. Dall¿Agnol,divulgação / Divulgação

Assinatura do decreto de criação do município em 1965: Reinaldo Cherubini, Ildo Meneghetti, Augusto Trevisan, Angelo Brandalise e João PegoraroAcervo de Ada P. Dall¿Agnol,divulgação / Divulgação

Emancipação em 1965

Em 1932, a localidade de Paraí foi desmembrada de Lagoa Vermelha e passou a ser o quinto distrito de Nova Prata. Já a emancipação de Nova Prata ocorreu em 9 de julho de 1965. Na foto ao lado, o momento da assinatura do decreto de criação do município. Da esquerda para a direita estão o prefeito de Nova Prata na época, Reinaldo Cherubini; o senhor Antonio Octavio Dall’Agnol; o governador Ildo Meneghetti; e os senhores Augusto Trevisan, Angelo Brandalise e João Pegoraro.

Colaboração

Informações desta coluna são uma colaboração de Simone Bordignon e Rosa Ana Bisinella.

Fonte: Zero Hora

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