Pandemia de Covid-19 causa perdas milionárias e colapso no setor de flores do Brasil

Com a queda drástica e imprevista nas vendas, produtores demitem e, em alguns casos, até mudam de ramo

ELIANE SILVA
05 JUL 2020 – 08H00 ATUALIZADO EM 05 JUL 2020 – 08H00

Flores (Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

*Publicado originalmente na edição 416 de Globo Rural (junho/2020)

Desde o início da quarentena provocada pela pandemia do novo coronavírus, uma cena se repete quase diariamente no Sítio Flora Daike, em Ibiúna, no interior paulista: um trator esmaga milhares de flores que, em tempos normais, seguiriam para as bancas de Holambra e da Ceasa de São Paulo e Campinas.

“Com a suspensão de eventos como casamentos e formaturas, além da limitação de velórios, nosso setor foi o primeiro a ser afetado pela pandemia e deve ser o último a retomar plenamente suas atividades”, lamenta Luiz Henrique da Luz Filho, membro da terceira geração da família Daike, que cultiva flores e plantas ornamentais há 55 anos.

Segundo ele, com o cancelamento dos pedidos, as vendas caíram praticamente a zero de um dia para o outro e estão longe de se recuperar. Colocando em números: o faturamento da empresa, que era de R$ 500 mil a R$ 600 mil por mês, fechou abril em apenas R$ 29 mil.

A Daiko faz parte de um segmento que destina 98% da sua produção para o mercado interno. Dados do Ibraflor (Instituto Brasileiro de Floricultura) e da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) indicam que as vendas de flores no país chegaram a cair 90% logo nas duas primeiras semanas da quarentena, resultando num prejuízo de R$ 297,7 milhões.

Em março, o Ibraflor já previa que 66% dos 8.700 produtores nacionais poderiam falir e 120 mil pessoas seriam demitidas se não fossem tomadas medidas urgentes para preservar o setor. A ajuda veio com a reabertura das floriculturas e garden centers na maioria das cidades, após um apelo de produtores e da CNA ao Ministério da Agricultura, que concordou em recomendar a inclusão de flores e plantas ornamentais como produtos essenciais.

“É preciso reforçar que flor também é produto agrícola e perecível. Além do fechamento equivocado de pontos de venda e da paralisação dos eventos, o setor enfrentou dificuldades de transporte, com o bloqueio de estradas”, argumenta Manoel Oliveira, presidente da Comissão Nacional de Flores e Hortaliças da CNA.

O segundo alívio veio no Dia das Mães. Renato Opitz, diretor do Ibrafor, diz que a data, tão importante para o setor quanto o Natal, registrou boas vendas, embora com uma queda de 30% a 40% em relação ao ano anterior. E foi mesmo só um alívio. “Os volumes foram bons, mas os preços pagos ao produtor caíram até 70%. Houve aumento de custo para colocar as flores no mercado e queda de faturamento”, conta Optiz.

Nos primeiros quatro meses do ano, a queda foi de 30% na comparação com o mesmo período de 2019. Um baque para um setor que vinha crescendo de 8% a 10% por ano desde 2014 e previa aumento de 11% em 2020.

Produção de flores no RJ (Foto: Demóstenes Ramos/Seapa/Divulgação)

(Foto: Demóstenes Ramos/Seapa/Divulgação)

De canteiros a hortas

Demissões, fechamento de unidades, paralisação de investimentos para exportações e conversão de canteiros de flores em hortas foram algumas das medidas adotadas pelos produtores para evitar maiores prejuízos. Os empresários do segmento de flores e folhagens de corte (comercializadas em hastes), usadas especialmente em decorações de eventos, foram os mais atingidos pela crise.

A Flora Daike, que planta principalmente lisianthus, amaranthus e bocas-de-leão, demitiu 64 de seus 85 funcionários e passou a produzir verduras em parte dos seus 13 hectares. A família fez empréstimos bancários para pagar as rescisões e fechou acordo com o restante dos funcionários de redução de jornada e salário.

"Desde o início da pandemia, jogamos fora 8 milhões de hastes de flores. Plantamos para jogar fora. Mas não podemos parar, porque, na hora em que os eventos voltarem, precisaremos ter condições de atender"

Luiz Henrique da Luz Filho, membro da terceira geração da família Daike

Nos sítios da Liebe Azaleias, em Campos de Holambra (SP), as demissões atingiram 27 dos 80 colaboradores. “Nas primeiras duas semanas da quarentena, não vendemos nada. Passamos a replantar as azaleias em vasos maiores para tentar reaproveitar”, conta a produtora Simone Maria Liebe.

Com mais de 50 variedades da flor originária da China e do Japão, considerada um símbolo de sorte, a Liebe já tem azaleias plantadas para 2021 e 2022. São 10 hectares de estufa e viveiro. Os Liebe também criam gado de corte e cultivam citros, mas o segmento de flores vinha sendo responsável por 70% do seu faturamento.

Na região de Mogi das Cruzes (SP), especializada no segmento de flores de vasos e maior produtora de orquídeas do Brasil (2,5 milhões por ano), a perda de receita também foi abrupta nas primeiras semanas da quarentena, embora a recuperação tenha sido mais rápida.

Fabio Kazunori Dan cultiva orquídeas há 29 anos (produz 200 mil vasos por safra) e viu seu negócio perder 40% nas primeiras semanas da pandemia. Para evitar que as flores excedentes se perdessem nas estufas, optou por doá-las a asilos e instituições de caridade. A partir do Dia das Mães, segundo ele, as vendas voltaram a bons patamares, mas o preço caiu.

A queda de faturamento de janeiro até a segunda semana de maio foi de 29% na comparação com o mesmo período do ano passado. Kazunori demitiu apenas um dos 17 funcionários, mas fez mudanças de turnos e retirou a bonificação dos colaboradores. “Orquídea é uma flor de ciclo longo. Não posso comprometer a minha produção dos próximos três anos”, afirmou.

Produtores arrancam plantas que serão utilizadas como adubo (Foto: Divulgação)

Produtores arrancam plantas que serão utilizadas como adubo (Foto: Divulgação)

Produtores arrancam plantas que serão utilizadas como adubo (Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

Cooperativas

A Veiling Holambra, cooperativa de mais de 30 anos que concentra a venda de 400 produtores de São Paulo e Minas, festejou o resultado do Dia das Mães, que atingiu 80% do volume do ano passado. “Logo na primeira semana da quarentena, o faturamento desabou para apenas 6% do esperado. Na semana seguinte, recuperou um pouco, chegando a 19%”, revela o diretor-geral André Van Kruijssen, holandês que mora no Brasil há oito anos.

As vendas de flores em vasos estão voltando a bons volumes, segundo Kruijssen, mas o preço caiu 20%. Já os cerca de 100 associados do segmento de flores de corte das regiões de Atibaia (SP) e do sul de Minas estão quase parados porque dependem de eventos. Muitos estão investindo na produção de legumes.

Para ajudar os associados, a Veiling negocia redução de custos e busca intermediar empréstimos bancários. Os leilões presenciais voltaram a acontecer na sede em Holambra, mas com limitação de 150 clientes, muito álcool em gel e medidas de distanciamento social. Kruijssen estima que pelo menos 20% do faturamento previsto para este ano já está perdido, o que representa R$ 200 milhões.

Na Cooperflora, também em Holambra, as vendas do Dia das Mães alcançaram 60% do resultado de 2019, informa Andrea Wagenaker, gerente de marketing. A maioria dos 89 cooperados é especializada em flores de corte. “Na primeira semana da quarentena, 90% das flores foram para o lixo, e nossa orientação aos produtores foi parar de colher e esperar pela demanda.”

A Cooperflora, fundada há 20 anos, concentra os grandes produtores de rosas de Holambra, Andradas (MG) e do Estado do Ceará. Antes da pandemia, 70% do volume comercializado era destinado a eventos. “Para superar a maior crise do setor, tivemos de nos reinventar e criar um novo mix de produtos para oferecer a supermercados, floriculturas e compradores on-line”, conta Andrea.

Desistência

A Fazenda Lovely Red, que empregava 150 pessoas na produção de rosas em Ubajara, na Serra da Ibiapaba (CE), anunciou que deixará o ramo da floricultura.

“Fomos atingidos em cheio, com uma queda de 80% no faturamento. Melhorou um pouco no Dia das Mães e agora está 40% menor”, afirma Roberto Reijers, CEO da empresa com seu sobrenome, que foi fundada em 1972, em Holambra. O grupo é o maior produtor de rosas de estufa do país, com 12 unidades em São Paulo, Minas e Ceará.

Segundo Reijers, 60% das rosas da Lovely Red eram vendidas para eventos. Como as perspectivas nessa área não são nada animadoras, ele decidiu fechar essa unidade – inaugurada há apenas dois anos – e concentrar a produção de flores no Ceará em outra fazenda de sua propriedade, a São Benedito.

Minas

“Para o nosso setor, 2020 já é um ano perdido”, afirma Wagner Marcilio de Freitas Araújo, diretor comercial da Minas Flor, segunda maior distribuidora de flores e plantas de Minas Gerais. A família tem sítio perto de Belo Horizonte desde 1989 e também comercializa a produção de outros floricultores.

De acordo com Araújo, o faturamento na distribuidora caiu 92% na primeira semana da quarentena. Em maio, a retração foi de 80%, sem previsão de melhora. “Antes de colher, o produtor investe durante pelo menos cinco meses em insumos, plantio e manejo.”

Flavio de Assis Vieira, presidente da Associação dos Distribuidores e Produtores de Flores e Plantas de Minas Gerais, diz que 70% da produção do Estado está sendo jogada no lixo. “O que sustenta o setor são os eventos. O problema com essa debandada é que, no momento da retomada, não haverá flores para vender.”

Pois sem comprador, os produtores  nem sequer arriscam a iniciar novo planejamento de plantio, comprometendo a oferta futura.

Com a queda drástica e imprevista nas vendas de flores, produtores acumulam prejuízos milionários, demitem – e até mudam de ramo (Foto: Divulgação)Com a queda drástica e imprevista nas vendas de flores, produtores acumulam prejuízos milionários, demitem – e até mudam de ramo (Foto: Divulgação)Com a queda drástica e imprevista nas vendas de flores, produtores acumulam prejuízos milionários, demitem – e até mudam de ramo (Foto: Divulgação)

Fontes: Ibraflor, CNA, secretarias estaduais e AIPH (Associação Internacional dos Produtores Hortículas)

Com a queda drástica e imprevista nas vendas de flores, produtores acumulam prejuízos milionários, demitem – e até mudam de ramo (Foto: Divulgação)

Fontes: Ibraflor, CNA, secretarias estaduais e AIPH (Associação Internacional dos Produtores Hortículas)

PRINCIPAIS ESPÉCIES CULTIVADAS NO PAÍS:
Flores cortadas (hastes): rosas, crisântemos, astromélias, lírios, lisianthus
Plantas em vasos: orquídeas, kalanchoe, crisântemos e antúrios

Fonte: Globo Rural