CAMPO E LAVOURA – Palavra do especialista | Produção sustentável – Carlos Nabinger: Novos caminhos para a produção sustentável

Terminei a coluna anterior com a questão: haverá outros caminhos? Ou seja, como equacionar produção versus a conservação ambiental, considerando que em breve seremos nove bilhões de habitantes?

A resposta é sim, existem soluções, mas com muitos condicionantes. Estes são: estancar imediatamente a destruição dos biomas terrestres e aquáticos e recuperar boa parte destes; alterar rapidamente os atuais sistemas de produção agrícola e a exploração irracional dos recursos naturais, sem diminuir a produção de alimentos; diminuir as perdas na produção, colheita, beneficiamento, transporte e armazenagem; tornar a distribuição de alimentos mais equitativa, diminuindo a miséria e a pobreza; maior investimento em educação.

Difícil hierarquizar e priorizar esses condicionantes, pois são todos interdependentes. Assim, vou obedecer à ordem em que estão colocadas, ainda que hoje só possamos, por questão de espaço, abordar sucintamente as duas primeiras.

A destruição dos biomas decorre do desconhecimento dos potenciais de produção de bens (madeira, celulose, resinas, mel, medicamentos, ornamentos, carne, leite, lã, couros, frutos, etc.) e mais anda dos serviços ecossistêmicos que eles prestam (sequestro de carbono, filtragem das águas e recarga dos aquíferos, manutenção de serviços da flora e fauna como a polinização, etc.). A manutenção desses serviços é essencial para a vida humana e, inclusive para equilibrar os passivos ambientais gerados pelas monoculturas intensivas, dos quais ainda somos dependentes.

Portanto, manter e até mesmo recuperar parte dos biomas terrestres é um imperativo e o grande desafio para a pesquisa. Felizmente esses podem ser explorados para a produção de bens de forma sustentável e, se essa exploração obedecer ao ritmo dos processos que ocorrem na natureza, pode ser altamente viável do ponto de vista econômico, conforme escrevi, por exemplo, sobre o uso dos nossos campos nativos (Zero Hora, edição de 12 e 13 de novembro de 2016).

O segundo condicionante é a necessidade de repensar os sistemas cultivados diminuindo/evitando o uso de insumos externos. Mas isso só será possível através da melhor integração de atividades, como é o caso da integração lavoura-pecuária-florestas (IPFL). Os conhecimentos gerados pela pesquisa nesses sistemas permitiu descobrir propriedades novas na dinâmica da fertilidade dos solos e diminuir o uso de fertilizantes e defensivos, sem perda de rendimento. Mas isso é tema para mais uma coluna, assim como os demais condicionantes acima mencionados.

Carlos Nabinger é mestre em Fitotecnia e doutor em Zootecnia, professor da Faculdade de Agronomia da UFRGS
nabinger@ufrgs.br

Fonte : Zero Hora

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