Os produtos da terra (Artigo)

Nos anos 70 do século passado, em pleno governo militar, a palavra de ordem era substituir importações. Importar era um pecado ao qual não se podia recorrer a não ser em último caso. Essa filosofia aparentemente bizarra esteve em vigor durante muito tempo. A intenção primeira do legislador era compreensível e louvável: favorecer a incipiente industrialização do país, ainda frágil naqueles idos. É inegável que uma parte do objetivo foi atingida: a medida permitiu que certos ramos industriais de fato se desenvolvessem.

A par disso, os brasileiros que desejassem fazer viagens de turismo ao exterior não tinham a vida fácil. As autoridades econômicas estipularam que cada turista tinha direito a adquirir legalmente apenas uma pequena quota de dólares por ano. A insignificância do total autorizado desencorajava os candidatos a passear "lá fora". Pior ainda, o montante adquirido vinha consignado no passaporte do viajante, o que impossibilitava nova compra de divisa estrangeira até o ano seguinte. Os cartões de crédito brasileiros não tinham validade internacional. Portanto, não havia como escapar, a não ser por vias ilegais – recorrendo a doleiros, por exemplo. Mas supomos todos que isso nunca deva ter ocorrido, dada a aversão de nosso povo a todo recurso ilícito.

Essas medidas governamentais combinavam com a época. Vivíamos tempos peculiares de retiro, recolhimento, internação. Nosso país se afastava do mundo, na crença de ser ilha de prosperidade num mar turbulento. Deu no que deu. Se, por um lado, a diabolização das importações atingiu o objetivo de dar alento a alguns setores da indústria nacional, gerou também, por outro lado, imensa defasagem em outros setores. A proteção garantida a tudo o que fosse produzido no país provocou, como efeito colateral, atraso no desenvolvimento de novas tecnologias.

Paralelamente, a via-crúcis a ser percorrida pelo candidato a viagens de turismo no exterior também colaborou para a inibição das viagens e para nosso encolhimento intelectual. Até a importação de livros estrangeiros era vista com um misto de desconfiança e desprezo, e tratada com proposital lerdeza.

Naqueles tempos em que o Brasil dava as costas ao mundo, o desinteresse que nossas autoridades demonstraram por novas tecnologias fez que perdêssemos irremediavelmente boas oportunidades. Os tigres asiáticos seguiram outra via: investiram no desenvolvimento de artefatos sem os quais os aparelhos eletrônicos atuais não podem funcionar. Hoje dominam o mercado. Não fosse a miopia de nossos decididores de 30 ou 40 anos atrás, poderíamos fazer parte do clube. Ficamos fora.

Não foi senão no começo dos anos 1990 que os mourões do curral foram derrubados um por um e a cerca que nos separava do resto do planeta veio abaixo. De lá para cá, nosso país revigorou-se. Não se recupera o que foi perdido nem se refaz a história, mas temos de reconhecer que uma parte do fosso tem sido obturada.

Felizmente, tudo isso é passado, não corremos mais perigo de embotar o que nos resta de indústria. É assim, não é mesmo? Pois não tenha o caro leitor tanta certeza…

Li outro dia que nosso governo estuda meios de dificultar a importação de vinhos. O objetivo declarado é a proteção à indústria vinícola nacional. Senti lá um ar de déjà vu, um perfume de anos 70. Lamentavelmente, erram de novo. E incorrem em dois enganos.

O primeiro consiste em acreditar que um bordeaux tinto seja a mesma coisa que um branco australiano. Pois não é, assim como um vinho alemão produzido com a delicada casta sylvaner está a anos-luz de um argentino fabricado com a corpulenta malbec. Não se podem comparar bananas com laranjas. O que se preconiza equivale a substituir feijão por lentilha. Embora ambos nasçam dentro de vagens, demorem a cozinhar, deem caldo escuro e façam parte da grande família das leguminosas, não são a mesma coisa.

O segundo engano é não se darem conta de que a proibição da concorrência é a maneira mais certeira de garantir a acomodação de uma indústria. Sem ameaça, não há estímulo. Sem estímulo, não há melhora. Se chegarmos a "dificultar" importação de vinho, estaremos voltando a práticas ultrapassadas e comprovadamente ineficazes. É a melhor maneira de bloquear o desenvolvimento enológico brasileiro.

Se a todos é hoje permitido fazer sua viagenzinha anual a outras terras e lá gastar suas economias, por que diabos se lhes dificultaria, uma vez de volta a casa, o consumo de vinhos produzidos além-mar?

Fonte: CORREIO BRAZILIENSE – DF