Os percalços de um equilibrista que optou por descer do muro

Ana Paula Paiva/Valor
Rodrigues não acredita que seu apoio a Aécio prejudicará o segmento sucroalcooleiro caso Dilma Rousseff seja reeleita

Ícone do agronegócio no país, ex-ministro do governo Lula e atual presidente do conselho de administração da maior entidade que representa usinas de cana-de-açúcar do país (Unica), Roberto Rodrigues chegou a causar apreensão do segmento sucroalcooleiro ao declarar seu apoio à candidatura presidencial de Aécio Neves (PSDB) em meio a uma relação já turbulenta com o governo Dilma.

Rodrigues reconhece que esse posicionamento possa gerar problemas em caso de reeleição da presidente, mas acredita que fez o que tinha que ser feito. "Declarei meu voto como pessoa física". Mas afirma sentir um certo arrependimento por ter revelado, também antes do primeiro turno, que o segmento sucroalcooleiro tinha uma inclinação pela então candidata Marina Silva. "Me arrependi porque não posso falar pelo setor. Aquela posição era de algumas pessoas, não de todas".

Ele lembra que pensou muito antes de revelar seu apoio a Aécio. "Mas fiz conscientemente, com base em um fato histórico". E faz um paralelo com o que aconteceu quando recebeu o convite do ex-presidente Lula para assumir o ministério da Agricultura, em 2003. "Eu disse ao Lula: não posso aceitar. Votei no Serra e trabalhei na campanha dele. E o Lula me respondeu: Mas a eleição já acabou!", diz Rodrigues, sem esconder sua admiração pelo ex-presidente. "Conhecendo bem a Dilma como conheço, essas coisas não serão misturadas. Mas é possível".

Ele observa, ainda, que as dificuldades da presidente em tratar o segmento sucroalcooleiro são anteriores à sua declaração de apoio a Aécio. "Não me parece que isso vai mudar devido a essa posição".

Questionada se o voto declarado de Roberto Rodrigues poderia atrapalhar as negociações sucroalcooleiras com o Planalto, a presidente-executiva da Unica, Elizabeth Farina, diz "não saber". "Mas acho que não, porque ele recebe sempre telefonemas do Mantega [ministro da Fazenda Guido Mantega] e do Mercadante [Aloizio Mercadante, ministro da Casa Civil]", afirma ela.

A entidade, que oficialmente mantém uma posição política neutra, há tempos revela suas insatisfações com a falta de medidas que ajudem efetivamente a produção de etanol. "Além disso, Roberto Rodrigues não é apenas membro do conselho da Unica, mas de várias outras empresas. Diferentemente do meu caso, que sou 100% do tempo dedicada à Unica", observa Elizabeth.

Segundo fontes do segmento, o próprio ministro Mantega já teria reconhecido, em reuniões a portas fechadas com usineiros, que o governo não deu a devida importância ao etanol. Há rumores de que ele já teria até se comprometido com reajustes gradativos da gasolina e com a retomada da cobrança da Cide na gasolina depois das eleições. Além dessas demandas, o segmento pede o estabelecimento de regras claras de precificação da gasolina e um amplo programa de financiamento de troca de caldeira nas usinas para permitir a elevação da produção de eletricidade a partir do bagaço.

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Fonte: Valor | Por Fabiana Batista | De São Paulo

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