Os grandes desafios do etanol brasileiro

O mundo vem buscando alternativas aos combustíveis fósseis há muitos anos. Diversas são as iniciativas, contudo, a maioria delas inviável financeiramente. O etanol brasileiro tem sido apontado como o único biocombustível com condições financeiras de substituir a gasolina. Porém, meus estudos indicam que, no médio prazo e nas condições atuais de mercado, a rentabilidade das destilarias brasileiras tende a ser fortemente afetada, o que pode colocar em risco o seu desenvolvimento sustentável.

Apesar da alta volatilidade dos preços do petróleo nos últimos anos, o preço da gasolina teve aumentos comportados, o que de certa forma tem contribuído para a contenção da inflação, o que beneficia consumidores, mas produz efeito inverso sobre a rentabilidade do etanol brasileiro. Grande parte dos consumidores optou por comprar carros flex nos últimos anos, tendo assim a possibilidade de uso tanto da gasolina como do etanol. A conta é simples: se o preço do etanol estiver abaixo de 70% do preço da gasolina, é vantajoso utilizar o etanol. Para o consumidor é ótimo ter essa opção. Entretanto, como o preço da gasolina teve reajustes moderados nos últimos anos, o preço do etanol tem superado o teto de 70% do preço da gasolina. O problema é que nos últimos 5 anos o preço da cana-de-açúcar subiu 50%, aumentando muito os custos dos produtores de etanol e diminuindo drasticamente sua rentabilidade.

Por que, apesar do preço elevado e da enorme demanda, poucos investimentos no setor foram anunciados?

Durante o ano de 2011, vimos o preço do etanol subir de forma acelerada, atingindo patamares superiores a R$ 2,50 por litro, o que trouxe enormes preocupações para o governo. Mas por que, apesar do alto preço do etanol e da enorme demanda pelo produto, poucos investimentos no setor foram anunciados? Não há resposta simples para essa pergunta, porém, a origem da controvérsia está na produção de cana, no preço do açúcar, no custo logístico brasileiro e no preço das terras.

O setor sucro-alcooleiro brasileiro tem por volta de 400 unidades produtivas, usinas e destilarias, sendo que 60% delas podem produzir açúcar e álcool. Como a rentabilidade do açúcar nos últimos anos tem sido muito mais alta do que a do etanol, os produtores têm destinado a maior parte do caldo de cana extraído para a produção de açúcar, em vez de utilizá-lo para fazer etanol. Em consequência, grande parte dos investimentos do setor tem sido destinada para aumento de capacidade de produção de açúcar e co-geração de energia. A margem operacional das usinas de açúcar tem se mantido alta, em torno de 30%, porém o mesmo não ocorre com as destilarias de etanol, com margens em torno de 15%.

Destilarias de pequena escala tendem a ter margens operacionais ainda menores, atingindo, em média, menos de 10%. Com esse nível de rentabilidade, diversas destilarias tiveram problemas para o pagamento de suas dívidas e foram obrigadas a refinanciá-las, ou mesmo, a parar suas atividades.

Grandes players nacionais e internacionais compraram nos últimos cinco anos por volta de 100 empresas em dificuldades, principalmente em função de sua alta alavancagem financeira. Neste momento são poucas as oportunidades de boas compras, porém o processo de consolidação ainda está em andamento. A maioria desses players continua cogitando aquisições, mas estão focados na integração dos negócios adquiridos e na expansão de suas capacidades de produção. O grande problema tem sido o acesso à matéria prima, a cana-de-açúcar. A competição por cana tem sido acirrada, uma vez que uma boa parte da cana utilizada pelas usinas é comprada de terceiros. O seu preço subiu quase 50% em 5 anos, de R$ 51,00 a tonelada, em 2006, para mais de R$ 70,00, em 2011. Isso se deu pelo aumento do custo de plantio e pela quebra de safra deste ano.

  

Outro fator que tem pressionado os custos e a rentabilidade dos produtores de etanol é o preço das terras e, por consequência, o preço do seu arrendamento. O Estado de São Paulo produz aproximadamente 60% da cana do Brasil, principalmente no nordeste do Estado, o que valorizou demais as terras na região. Esse fato dificultou ainda mais a expansão de novas capacidades produtivas de etanol e diminuiu a margem do produto.

Algumas companhias tentam deslocar sua produção e novas unidades para outros estados em busca de terras mais baratas e de menor concorrência na compra de cana de terceiros, contudo, o custo logístico aumenta consideravelmente. Diversos investimentos têm sido desenvolvidos para diminuir custos logísticos, inclusive a construção de dutos para transporte de etanol, porém sua evolução é gradativa e lenta.

Neste momento, o governo está concentrado em garantir a oferta de etanol para os consumidores a preços competitivos, o que é justo, uma vez que a população aderiu em massa à compra dos carros flex. A Petrobras tem papel fundamental para garantir esta oferta de etanol, porém o país não pode depender somente dela para isso. O BNDES, recentemente, lançou novas linhas interessantes de financiamento para renovação de canaviais e para etanol celulósico. Contudo, não resolvem o problema de rentabilidade das destilarias.

Existe um consenso de que não faltará demanda para o etanol brasileiro. O grande problema é como tornar sua produção rentável atraindo novos investimentos. É evidente que, para que haja uma resposta imediata dos empresários do setor em relação às novas expansões, é necessário um esforço do governo para que se aumente a rentabilidade dos investimentos, pois dadas as condições atuais, provavelmente no médio prazo teremos menos destilarias rentáveis, o que é insustentável. A solução para esta equação deve-se basear em três fatores: a desoneração tributária do etanol, a aceleração dos investimentos em logística para o deslocamento de produção para outros Estados e, principalmente, o incentivo para o aumento de plantio de cana-de-açúcar.

Ricardo Mollo é professor de Finanças do Insper, PhD candidate na University of London. Trabalhou por 20 anos no Mercado Financeiro tendo sido diretor do Unibanco. E-mail: ricardorsm@insper.edu.br

Fonte:  Valor | Por Ricardo Mollo

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