Os frutos da juçara

ONG estimula conservação da palmeira e garante nova fonte de renda a produtores do Vale do Paraíba

por Hanny Guimarães I Fotos Manoel Marques

Editora Globo

Daniela Coura é uma das criadoras do projeto que já repovoou 110 mil mudas

“O meu pai dizia que, se quiséssemos ir embora do campo, nós poderíamos ir, mas que nunca vendêssemos a terra, porque é um ouro que está plantado nela e isso ninguém pode tirar.” O pai de Lourdes Maria dos Santos Alves não imaginava que poderia ganhar dinheiro preservando a floresta, mas tinha razão. As matas de Natividade da Serra, cidade localizada no Vale do Paraíba, a 185 quilômetros de São Paulo, eram valiosas.
A palmeira-juçara (Euterpe edulis) reinava absoluta naquele marzão verde da Mata Atlântica e era uma das maiores riquezas do lugar. Tanto que palmiteiros invadiram a região em busca do produto que a planta fornecia. Ilegalmente, retiravam o que podiam, levando a espécie a ser considerada ameaçada de extinção. A pecuária que se expandiu ali ajudou a alavancar a economia local, mas, sem muitos cuidados, também contribuiu para encurtar aquela porção de floresta e excluir de vez a palmeira do mapa.

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Os homens aprendem técnicas de rapel e fazem a coleta, que vai de novembro a janeiro

Certo de que as matas precisavam de proteção, o engenheiro florestal João Paulo Villani fundou, em 2003, a ONG Akarui, com o objetivo de estimular o desenvolvimento ambiental de São Luiz do Paraitinga e Natividade da Serra. Apaixonado pela juçara, começou a pensar em como poderia resgatar a planta na paisagem. Em 2007, ele encontrou a arquiteta Daniela Coura, que andava pela região para fazer um levantamento de quantas palmeiras ainda resistiam na flora do Estado. Juntos, criaram o projeto Semeando Sustentabilidade para fomentar a preservação da juçara. O trabalho se daria com o apoio de agricultores locais que antes permitiam que palmiteiros invadissem suas terras. Mas, se a árvore fosse fonte de renda, sem que para isso precisasse ser cortada, então, talvez, existisse uma chance de unir a conservação da espécie ao desenvolvimento rural.

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Jorge Wilmers está espalhando as mudas de juçara por São Luiz do Paraitinga (SP)

Dona Lourdes foi a pioneira no projeto. Ela e os dois filhos apostaram na ideia e seguiram da comunidade de Vargem Grande para a vizinha São Luiz do Paraitinga com o propósito de aprender sobre o manejo sustentável. Lá, ouviu que poderia fazer polpa do fruto da juçara, ingrediente que nem imaginava usar na alimentação. Voltou cheia de planos e inspirou mais 16 famílias a manter a planta na floresta e extrair dela apenas os frutos maduros, que lembram até o famoso açaí. “Na época, foi muito difícil. Era começar do zero, e não sabíamos se iria dar certo, mas persistimos. Eu nem acredito que venci essa luta”, conta ela, que também mantém um viveiro na propriedade e, no ano passado, ao lado dos parceiros de projeto, vendeu 25 mil mudas de juçara a R$ 1 cada.
Da fruta é feita a polpa, vendida a R$ 10 o quilo; rende também a semente, comercializada a R$ 8 o quilo. Daniela, que acabou ficando em São Luiz do Paraitinga, coordena o projeto desde então e vê, literalmente, a juçara dando frutos. “É uma alternativa de vida melhor para os pequenos agricultores do vale”, afirma. A proposta contou com o apoio financeiro de empresas como Fibria e Petrobras, o que possibilitou a doação de cerca de 110 mil mudas, até o momento, para o repovoamento da espécie. Agora, são as famílias viveiristas que fornecem as mudas para a Akarui. A ONG compra o material dos agricultores da região, fomentando um ciclo econômico.

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O fruto rende uma polpa de cor roxa que garante diversas receitas

Daniela explica, sem entregar o ouro ao ladrão, que em Natividade da Serra ainda é possível encontrar a juçara mata adentro. O ciclo produtivo da planta vai de novembro a janeiro. Os homens, que aprenderam técnicas de rapel, sobem na palmeira para fazer a coleta e as mulheres fazem o beneficiamento. Por iniciativa de dona Lourdes, o alimento entrou até na merenda escolar e rende sucos e bolos que a molecada já não vive sem. No ano passado, 1 tonelada de polpa foi comercializada. O projeto rendeu também a construção de uma cozinha, pronta em março deste ano, que aguarda apenas a licença da prefeitura para operar e ajudar a ampliar a produção. Agricultoras como Santina Caetano Ribeiro não veem a hora chegar e já foram até bater na porta do prefeito para agilizar o processo. “Isso muda tudo para nós, pois, além da polpa, vamos poder fazer também doces com as frutíferas da região e comercializar em uma feira de produtos locais. É uma oportunidade e tanto”, comemora.
Em São Luiz do Paraitinga, restou apenas uma palmeira na beira da estrada para fazer conta.

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Dona Lourdes foi uma das pioneiras do projeto em Natividade da Serra (SP)

Lá, as mudas começaram a se espalhar pelas mãos do hoje diretor da Akarui, Jorge Wilmers Martins. Ele e a esposa, Ângela Beatriz de Azevedo César, se encontraram na cidade após passarem oito anos na Inglaterra. De volta, ficaram com a juçara. É com ela e com a produção de granola que Jorge mantém a vida prazerosa no campo. “Vivemos com um pé na granola e outro no viveiro”, conta, animado com as 5 mil mudas que já vendeu até o momento.

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Fonte: Globo Rural

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