Opção entre combustível e alimentos

Enquanto no Brasil se faz de tudo para impedir a construção de hidrelétricas, usinas perdidas no meio da Amazônia ou mesmo do Pantanal, ocupando extensões ínfimas destes santuários ecológicos e produzindo energia limpa, renovável e sustentável, nos Estados Unidos da América (EUA), a discussão está em outro patamar. Contumazes consumidores de gasolina, pois sem ela não se movimentam em seus possantes e gastadores automóveis, os estadunidenses agora têm que optar entre mais etanol ou alimentos. Não é uma opção fácil, é claro. Ninguém come combustível, mas sim alimentos, em qualquer parte do mundo. Aliás, segundo a ONU, um bilhão de pessoas passam fome. Robert Bryce, estudioso do problema alimentar no mundo, lembra que, com a seca, as culturas de milho reduzidas, o preço dos alimentos e o aumento da possibilidade de escassez de cereais em todo o mundo, os norte-americanos voltam a lembrar dos males do petróleo estrangeiro. Houve um aumento do preço do milho, que subiu acima de 60% nos últimos dois meses. Há pouco se pagava US$ 8,49 por bushel – unidade inglesa de medida – seu ponto mais alto de sempre. E se as condições de seca na Europa e nos EUA continuarem, os preços vão subir mais.
Especialistas afirmam que uma crise alimentar global pode chegar em breve devido à seca. Vozes se levantam contra a produção de biocombustíveis. É isso o que eleva os preços mundiais de alimentos e muitos pobres estão sofrendo. O problema é que os EUA se irritam, desde alguns anos, com a sua dependência para com o petróleo estrangeiro, de bilhões de dólares, um grande custo para a economia e o ambiente. O Padrão de Combustíveis Renováveis, que impulsiona os EUA ao mercado de fabricação de combustível, é parte da solução. George W. Bush afirmou, ainda na Casa Branca, que os EUA eram “viciados em petróleo”. Daí que o etanol reduz a dependência do petróleo do exterior, cria empregos nos Estados Unidos e melhora o meio ambiente, revitalizando comunidades rurais e economizando dinheiro para os consumidores.
Para o lobby do etanol, o espectro do petróleo estrangeiro é uma armadilha para todos. Mas é preciso ser economista para entender por que a indústria do etanol está pressionando os preços dos alimentos? Apenas em 2012, 4,3 milhões de bushels de milho serão convertidos em combustível nos EUA. Aumentando o volume de etanol para ser misturado na gasolina, em apenas sete anos o Congresso norte-americano quase triplicou a quantidade de milho anteriormente utilizada para a produção de alimentos e que, hoje, vai para a produção de combustível. Os motoristas americanos estão queimando em seus carros movidos a etanol de milho quase tanto quanto a quantidade que alimenta todos os frangos, perus, bovinos, suínos e pescado combinados do país. A frota de carros com etanol dos EUA consumirá duas vezes a produção agrícola da União Europeia. O milho dos EUA produzirá tanto etanol quanto o Brasil, México, Argentina e Índia juntos. Precisa de outra comparação? Peter Brabeck-Letmathe, presidente da gigante suíça de alimentos Nestlé, alertou que o uso de alimentos para os biocombustíveis é “uma loucura absoluta”, nos EUA.

Fonte: Jornal do Comércio

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *