Opinião – Desafios de um crescimento medíocre

A publicação da queda na expectativa de crescimento do PIB brasileiro em jornais estrangeiros como o El País (espanhol) e o Le Figaro (francês), desencadeou uma série de explicações por parte do Governo Dilma do motivo pelo qual a economia brasileira não consegue deslanchar. Mesmo com iniciativas positivas como as reduções da taxa Selic, a abertura de linhas de crédito com juros subsidiados e a desoneração tributária a economia patina, assim como os veículos que trafegam na precariedade das estradas de algumas regiões produtoras de grãos do Centro-Oeste.
Muito já se discutiu sobre o “custo Brasil”, esta chaga que se espalhou de maneira endêmica nos locais onde, justamente, o país possui excelentes vantagens comparativas: o campo. Dentro das porteiras das fazendas a competitividade brasileira é invejável graças ao trinômio da excelência: clima tropical, tecnologia adaptada ao tropicalismo e produtores com gene empreendedor. A simples análise do último trimestre do ano demonstra esses fatos, com o crescimento da agropecuária atingindo 2,5% contra 0,6% do PIB nacional. Alavancadas pelo excepcional aumento nas exportações do café, milho e algodão os números da agropecuária mostram o caminho para robustecer a mediocridade do crescimento da economia brasileira.
Mesmo com o estrangulamento dos portos, mesmo com o modal rodoviário oneroso para longas distâncias, mesmo com a precariedade das estradas, mesmo com os maiores juros do planeta, a agropecuária sobrevive e cresce, ganhando espaço no comércio internacional. Isso tudo a despeito de todas as barreiras impostas tanto no aspecto social, ambiental e sanitário, que procuram impedir a competitividade nacional através de inúmeros contenciosos e descabidas exigências.
O Ministro Mantega tenta justificar o pífio crescimento brasileiro atrelando-o à crise econômica que atinge a Europa e os Estados Unidos, posicionamento que não deixa de ser coerente e verdadeiro. Entretanto, é inegável o fato de que as medidas anunciadas pelo governo no sentido de melhorar a logística e infraestrutura parecem não sair nunca do discurso. É preciso agilidade. É preciso priorizar certas decisões mesmo que as mesmas contrariem interesses menores. Anunciam-se planos de investimentos que atacam, de fato, os gargalos logísticos brasileiros, mas os mesmos restam atolados no lamaçal burocrático que o país criou contra si mesmo.
A agropecuária tem demonstrado, de forma inquestionável, sua capacidade de crescer acima do PIB brasileiro como ocorreu na última década (média de 3,67% contra 3,59%/ao ano, segundo o IBGE). Este fato, por si só é um indicativo de que à medida que a logística melhorar o crescimento agropecuário crescerá ainda mais, incrementando os números de toda a economia.
Os esforços dos governos na ampliação do crédito permitindo que as classes C e D sejam inseridas no mercado consumidor é uma grande conquista, mas não será capaz de gerar um crescimento duradouro pelo fato de que, ao destinar todos os seus recursos ao consumo as pessoas negligenciam sua poupança. Os brasileiros já são tradicionalmente pouco afeitos à poupança, preferindo antecipar o consumo ao invés de guardar o dinheiro e depois consumir. Isto não seria um problema muito sério se os juros do crediário por aqui não fossem estratosféricos, o que consome boa parte dos recursos daqueles que optam por tomar crédito. Esta conjugação de fatores acaba tornando o crescimento econômico cíclico e não regular, como seria necessário ao país.
Além disso, os investimentos em infraestrutura na casa dos 2% do PIB não são capazes nem de compensar as depreciações destas obras, quanto mais de receberem o acréscimo dos volumes de produtos oriundos do aumento da produtividade agropecuária. Neste aspecto, foi positivo o abandono do ranço estatizante do atual governo em direção à privatização ou à parceria do investimento privado. Já foi amplamente comprovado que o estado brasileiro não possui os recursos suficientes para fazer frente às demandas de infraestrutura e logística.
A resposta para o crescimento robusto e sustentável da economia brasileira passa pelas mãos da agropecuária e, quanto mais tempo esta verdade for negligenciada, maiores serão os desafios a serem enfrentados no futuro.
Rogério Arioli Silva é engenheiro agrônomo e produtor rural

Fonte: Agronotícias| Autor: Rogério Arioli Silva