Oferta limitada de trigo na Argentina preocupa moinhos

Nilani Goettems/Valor

Christian Saigh, do Sindustrigo: repasse de preços será quase inevitável

Os consumidores brasileiros em breve deverão começar a pagar mais caro por produtos à base de farinha de trigo. Com os estoques de trigo nacional em baixo patamar, diz Christian Saigh, presidente do Sindicato da Indústria do Trigo no Estado de São Paulo (Sindustrigo), as empresas moageiras estão sendo obrigadas a manter importações do cereal da Argentina mesmo em meio à alta de preços e à disparada do dólar, e nesse contexto os repasses de preços serão quase inevitáveis.

Atualmente, uma tonelada de trigo produzido na Argentina está custando em torno de US$ 250. O valor em dólar subiu cerca de 40% desde o início do ano, quando a tonelada estava em US$ 180, e surpreendeu muitos moinhos, que contavam com uma oferta abundante do país vizinho para garantir o abastecimento.

No entanto, afirma Saigh, os exportadores argentinos também estão vendendo para outros países, o que acabou reduzindo o volume disponível para as indústrias brasileiras. Da última safra de 18 milhões de toneladas, 5 milhões foram destinadas ao próprio mercado argentino e 7 milhões foram embarcadas a outros destinos, segundo estimativa da associação ArgenTrigo, que representa a cadeia de cereal naquele país. Restaram 6 milhões de toneladas para o Brasil.

Na opinião do presidente do Sindustrigo, os agricultores argentinos também estão segurando a comercialização do cereal à espera de receitas melhores, já que certamente deverão ter perdas com a safra de soja, que quebrou.

Para os importadores brasileiros, a alta do dólar piorou a situação, já que ajudou a encarecer o trigo para os moinhos em torno de 55%, diz Saigh. Essa alta preocupa porque o trigo representa aproximadamente 80% do custo de produção do segmento.

E esse custo pode aumentar ainda mais. Saigh acredita que, no segundo semestre, as indústrias terão que recorrer a trigo de origens como Estados Unidos e Canadá, que por estar fora do Mercosul paga a Taxa Externa Comum (TEC) de 10%. "O volume de importação de outras origens vai depender da oferta da Argentina", afirma.

De acordo com ele, o Sindustrigo deverá solicitar, na próxima reunião da Camex, que o país facilite a importação de 750 mil toneladas de outras origens para compensar a falta de oferta do vizinho.

Os estoques que os moinhos possuem de trigo da última safra nacional deverá ser suficiente para atender apenas à demanda de maio das indústrias de São Paulo e à demanda até junho das empresas do Paraná e do Rio Grande do Sul. A moagem a partir de julho, portanto, deverá ser toda realizada com trigo importado.

O repasse da elevação dos custos ao consumidor não será tarefa fácil. "A recuperação do consumo ainda não aconteceu. Com a falta de renda e o desemprego, as pessoas estão preferindo biscoitos e massas mais básicos. O consumo de pão diminuiu", afirma Saigh. Mesmo assim, o dirigente avalia que o repasse será a única alternativa para fechar a conta dos moinhos – o que, paradoxalmente poderá prejudicar a retomada do consumo.

Por Camila Souza Ramos | De São Paulo

Fonte : Valor

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