Oferta elevada pressiona grãos em Chicago

A previsão de oferta abundante de trigo ao redor do mundo desferiu um duro golpe nos preços do cereal neste início de 2014. Os contratos futuros de segunda posição de entrega (normalmente, os de maior liquidez) da commodity, que caíram em nove dos 12 meses de 2013, iniciaram o novo ano também no vermelho e encerrarão janeiro na menor cotação média mensal desde junho de 2010 na bolsa de Chicago, a US$ 5,8116. Cálculos do Valor Data fechados ontem indicam baixa de 8,09% ante a média de dezembro. Na comparação com janeiro de 2013, o recuo chega a 25,21%.

No início do mês, o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) surpreendeu o mercado ao elevar a projeção para os estoques americanos e globais de trigo ao fim da safra 2013/14, inflados por uma produção mundial mais robusta e pelo consumo nos EUA menor que o esperado anteriormente.

Conforme Glauco Monte, consultor da FCStone, a queda do milho – que concorre com o trigo no segmento de alimentação animal – ajudou a pressionar o cereal. "Até o ano passado, o trigo estava mais ou menos no mesmo preço que o milho. Agora, o milho está mais barato, o que faz a demanda para ração se voltar para esse produto", diz.

A tensão com o frio nos EUA chegou a dar suporte às cotações do trigo durante parte do mês, e ainda não está totalmente descartado que as temperaturas baixas possam trazer alguns danos às lavouras do cereal de inverno no país, que sairão da dormência em abril.

Das oito principais commodities agrícolas negociadas pelo Brasil no exterior e referenciadas nas bolsas de Nova York (café, açúcar, cacau, suco de laranja e algodão) e Chicago (soja, milho e trigo), o trigo é o que registrou a maior baixa em janeiro, ante dezembro.

As preocupações com o clima nas regiões produtoras do Brasil também respingaram sobre a soja em Chicago, mas não o suficiente para evitar que a oleaginosa permanecesse em terreno negativo. Os preços da commodity, que haviam se recuperado em dezembro, registraram baixa de 3% em janeiro. Em relação ao mesmo mês de 2013, a queda é ainda mais expressiva, de 9,58%.

No fim de 2013, alguns Estados brasileiros sofreram com a estiagem, o que fez crescer os temores com possíveis quebras. "O fato é que, mesmo com a demanda aquecida, todo mundo vê boas chances de uma supersafra na América do Sul", disse Eduardo Rodriguez, corretor do Fintec Group, na Flórida.

Segundo ele, já há relatos de que a China teria cancelado compras dos EUA, em busca do produto da América do Sul, mais barato. Os analistas estão atentos aos relatórios de exportação americanos, que podem confirmar esses rumores nas próximas semanas.

Diferentemente do trigo, o milho foi favorecido por previsões "altistas" do USDA, e fecha janeiro com uma perda de 0,13%. O órgão reduziu a estimativa para a produção e os estoques americanos e globais do grão ao fim de 2013/14 – na contramão do esperado pelo mercado.

Apesar do recuo marginal em janeiro, em relação ao mesmo mês de 2013 o milho é o que mais rolou ladeira abaixo, dentre as oito commodities analisadas. A queda chega a 39,28%, reflexo da recomposição da oferta global, após uma sequência de quebras por problemas climáticos ao redor do mundo.

Não é surpresa que o açúcar demerara também tenha ampliado as perdas em Nova York. A commodity até esboçou reação em meados do ano passado, mas a previsão de um superávit de 4,7 milhões de toneladas em 2013/14 voltou a pesar. Em janeiro, a média mensal ficou em 15,60 centavos de dólar por libra-peso, a menor desde junho de 2010. A baixa é de 5,74% ante dezembro, e de 17,25% ante janeiro de 2013.

O cacau fecha o mês com perdas de 0,76%, ainda que acumule alta de 23,12% ante janeiro de 2013. Apesar da expectativa de um déficit de 70 mil toneladas da amêndoa no ciclo 2013/14, as entregas nos portos do oeste da África não diminuíram como o esperado neste início de ano.

Únicos no campo positivo este mês, café arábica, suco de laranja e algodão foram favorecidos pelas preocupações em relação à oferta. A grande disponibilidade de café arábica, que corroeu os preços do grão ao longo de 2013, cedeu lugar às especulações de que os produtores do Brasil teriam diminuído os tratos culturais, o que levaria a uma colheita mais tímida. Assim, em janeiro, o café avançou 5,68%.

A valorização do algodão também foi expressiva (4,08%) no mês, já que persistem as projeções de oferta apertada. Porém, a decisão da China de encerrar seu programa de estocagem deve reduzir os preços domésticos e a demanda por importações – o que pode voltar a pressionar a commodity.

O suco de laranja continua apoiado nos sucessivos cortes nas previsões para a safra dos EUA. Em meio à expectativa de que a Flórida (que detém o segundo maior pomar de citros do mundo) colha o menor volume em 24 anos, a bebida encerrou o mês 1,23% acima de dezembro e 25,31% à frente de janeiro de 2013.

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Fonte: Valor | Por Mariana Caetano e Fernanda Pressinott | De São Paulo

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