Oferta de trigo poderá afetar a reação do consumo de farinha

Silvia Costanti/Valor

Rubens Barbosa, presidente da Abitrigo: indústria terá que repassar custos

Depois de três anos em baixo patamar, o consumo de farinha de trigo tende a voltar a crescer no Brasil em 2018, mas as indústrias continuam preocupadas com a disponibilidade do cereal no mercado doméstico para fazer frente a essa retomada.

Segundo levantamento recém-concluído pela Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), o consumo de farinha alcançou 8,4 milhões de toneladas no ano passado, mesmo patamar de 2016. O volume permaneceu, dessa forma, superior ao de 2015, mas voltou a ficar abaixo da média observada entre 2011 e 2014, período que precedeu o aprofundamento da crise econômica.

"Prevemos uma recuperação neste ano, mas ainda não temos uma visão clara do ritmo da retomada. Tudo dependerá do ritmo de avanço da economia brasileira e do suprimento de trigo, que é motivo de incertezas", afirmou ao Valor o embaixador Rubens Barbosa, presidente da Abitrigo.

Barbosa lembra que a redução do poder aquisitivo dos brasileiros nos últimos anos motivou mudanças de hábitos de consumo que afetaram até produtos básicos como pães, macarrão e biscoitos. Mas destacou que a tendência é de melhora desse cenário, mesmo que de forma lenta.

Nesse contexto, o que preocupa o embaixador é o suprimento de trigo. Notícias de campo sinalizam que a entrada no mercado da safra que no momento está sendo semeada nos Estados do Paraná e do Rio Grande deverá atrasar.

Além disso, realçou Barbosa, haverá limitações para a importação do cereal da Argentina, cuja produção será menor que a esperada e onde muitos agricultores estão segurando as vendas como forma de proteção às oscilações cambiais.

Por isso, confirmou, a Abitrigo está reforçando as gestões junto ao governo federal para que a Câmara de Comércio Exterior (Camex) aprove que os moinhos importem trigo produzido fora do Mercosul sem o pagamento da Tarifa Externa Comum (TEC).

"Apoiamos a iniciativa do Ministério da Agricultura de pedir que a Camex aprove uma cota de 750 mil toneladas sem TEC, de qualquer origem. Mas, para que a medida não prejudique os produtores brasileiros, esse volume terá que chegar até o início de setembro, e o prazo para isso é curto", afirmou Rubens Barbosa.

Em boa medida graças a essas limitações em relação à disponibilidade de trigo, que tem oferecido sustentação às cotações da matéria-prima, a Abitrigo reconhece que as empresas do segmento vão repassar aumentos de custos no Brasil e que esse movimento poderá até limitar a retomada do consumo doméstico de farinha. Mas não acredita que esse movimento evitará o crescimento da indústria moageira em 2018, mesmo que pequeno.

Por Fernando Lopes | De São Paulo

Fonte : Valor